Estadão é invadido por lobistas da indústria
Junho 6, 2009
A manchete de hoje no Estado de S. Paulo é um daqueles casos de livro texto, exemplo do que não fazer para estudantes que estão aprendendo a diferença entre notícia e editorial.
Na faculdade, se aprende que a notícia deve ser tão isenta quanto possível. O editorial pode tomar partido. A manchete é a seguinte: “Brasil taxa aço importado para conter invasão chinesa”.
Para quem não se incomodou com a invasão chinsesa, vale a pena dar uma olhada na página B6 do caderno de economia. Lá, a notícia no alto da página é: ”Argentina barra mais produtos brasileiros”.
Nenhuma das duas matérias lembra que, no começo da crise internacional, presidentes de vários países se reuniram nos EUA e aprovaram um texto em que, entre outras coisas, prometem evitar o fechamento de seus mercados à concorrência estrangeira.
Na matéria de capa, o lobby das siderúrgicas contra o livre comércio vira “apelo das siderúrgicas, que estão perdendo mercado brasileiro para as importações” e o governo brasileiro aumenta as alíquotas de zero para até 14% para “proteger a indústria nacional”.
Na página B6, onde a barreira alfandegária é estrangeira, “empresários argentinos dos setores de calçados e auto-peças conseguiram impor significativas reduções nas vendas de de produtos fabricados no Brasil para a Argentina, colocando de lado o espírito de livre comércio do Mercosul.”
Não custa tanto trocar o “invasão chinesa” por “concorrência chinesa” na manchete, porque é isso que o lobby das siderúrgicas quer conter.
A própósito, o que o texto chama de invasão é um crescimento de 53,8% nas importações de aço chinês entre janeiro e abril deste ano, comparado ao mesmo período do ano passado. São R$ 61,5 milhões a mais em importações. Para um mercado do tamanho do siderúrgico, é merreca.

Lobista da indústria siderúrgica esculpido em barro - México, Museu de Antropologia