Dia do Servidor Público
Outubro 26, 2009
Um dos grandes temas do direito constitucional americano é a separação entre Estado e igreja. Ao contrário do que se possa imaginar, porém, quando casos relacionados ao assunto chegam à Suprema Corte, nem sempre a discussão se concentra em questões subjetivas acerca da natureza do ser humano. O ponto-chave é o imposto pago pelo cidadão. Por exemplo, por que o Estado deve gastar seus escassos recursos, oriundos da contribuição de todos, com medidas que visam a promover uma causa específica?
O dinheiro pode ser uma praga, mas ajuda a entender muita coisa.
Hoje, 26 de outubro, muitos servidores públicos estão “comemorando”, adiantadamente, o Dia do Servidor Público (28). Merecido? Justo? Legal?
A pergunta certa é outra: por que todos estão pagando?
Civilização, ou, a diáspora brasileira
Outubro 21, 2009
Há tempos não via as notícias de esporte na TV. Hoje, não sei por quê, assisti. Passaram um bom tempo mostrando gols e passes de jogadores brasileiros em times europeus. São nosso migrantes. Mas não são os únicos. De minha turma de faculdade (cerca de 30, formados em 1999) sei de sete que hoje moram fora do país. Há mais uma que foi e voltou. Também tenho parentes migrantes.
São todos muito bons no que fazem e todos queriam bastante sair daqui. As agruras cariocas de todos os dias explicam um pouco esse desejo de migrar. A falta de trabalho no Rio explica outro tanto.
Não sei se o mundo lá fora é mais civilizado, se as pessoas são menos assaltadas ou se alugar um apartamento envolve menos burocracia. Mas sei que estar longe da família e dos amigos é um custo respeitável.
Para morar fora valer a pena, o benefício (o ganho em qualidade de vida) tem que ser maior que esse custo. E se for mesmo – e essa proporção de migrantes parece indicar que é – então as coisas aqui estão realmente pouco civilizadas…

Rio Sena, visto do alto da torre - 2008.
O laboratório de Lupi
Outubro 10, 2009
A Lei do Estágio é uma daquelas experiências de pode gerar argumentos para várias discussões. A primeira delas é sobre a lógica do mercado. O mercado funciona? O mercado de trabalho funciona?
Os economistas não têm muita dúvida, mas o atual ministro do trabalho, Carlos Lupi, tinha - e fez o teste. Sua lei aumentou os encargos trabalhistas e criou vários direitos, como o de férias, para os estagiários.
O resultado foi que, de 1,1 milhão de vagas de estágio que havia em setembro de 2008, restaram 900 mil em setembro de 2009. Os números, da Associação Brasileira de Estágios, estão no Estadão de hoje.
Quando o custo de contratar aumenta, as empresas contratam menos. A lei, no fim das contas, foi um desserviços aos estagiários, que não estão atrás de direitos trabalhistas, mas de um lugar para aprender um trabalho, conhecer de perto as empresas em que podem trabalhar como funcionários no futuro e perceber que tipo de aptidão vão ter que desenvolver para trabalhar naquele setor.
A segunda discussão que esses números levantam é a da nomeação de aliados sem nenhum preparo técnico para ocupar ministérios importantes, como é o caso do ex-presidente do PDT Carlos Lupi. O benefício político para o governo de ter partidos aliados no parlamento compensa o prejuizo que o ministro causa em termos de diminuir o bem estar da população – destruíndo vagas de estágio, por exemplo?
Outra discussão é sobre o Congresso. Afinal, a Lei do Estágio foi aprovada pelo Congresso. E, na época, seus efeitos eram perfeitamente previsíveis. Mas se o Congresso é formado por aliados que só querem ocupar ministérios e nomear diretores de estatais, há chance de que até projetos delirantes do executivo – como esse – consigam maioria.
A a quarta, e última, discussão é sobre a idéia de independência entre os poderes da república – como foi pensada originalmente. Ela ainda tem alguma coisa a ver com o que acontede em Brasília atualmente?

Lupi: experiências de laboratório com o estágio dos outros
Urucubaca, ou, estatísticos por natureza
Outubro 7, 2009
Estamos sempre tentando associar coisas, perceber que causa leva a que efeito ou como o vento de hoje pode estar associado à chuva de amanhã.
Procuramos correlações, coisa de estatístico. A diferença é que os estatísticos admitem isso e tentam refinar seus métodos.
E, refinados os métodos, eles podem ajudar a não fazer associações erradas, a não procurar explicações mirabolantes para o dono do partamento não renovar o contrato de aluguel, o carro dar defeito, o computador ter vírus e eu ser alvo de rejeitos de passarinho (o que me lembrou A igualdade é branca), tudo na mesma semana.

Placa associada à presença de pessoas sem sorte
Segue o seco
Setembro 26, 2009
Muita gente não entende, até hoje, como milhões de pessoas seguiram líderes como Hitler, Stalin e Mao. Ou mesmo como algumas dezenas seguiram figuras como Charles Manson e David Koresh. Curiosamente, porém, ninguém se espanta que 1 milhão de usuários de internet sigam o apresentador Luciano Huck no Twitter. Sim, aquele Luciano Huck que desfiou sua revolta, em artigo na Folha de S. Paulo, depois de ter o Rolex roubado, mas que nunca exibiu semelhante indignação em relação à miséria, à desigualdade, aos privilégios, à corrupção ou à situação da saúde pública. Aquele Luciano Huck que se acha o suprassumo da responsabilidade social porque (supostamente) paga seus impostos em dia. Aquele Luciano Huck que, semanalmente, submete cidadãos de baixa renda a pressões intensas e testes de laboratório, em troca de um presente financiado por patrocinadores, como se fosse um gesto magnânimo de caridade.
O fato é que, pela primeira vez, um brasileiro alcança 1 milhão de seguidores no Twitter.
Além disso, e por incrível que pareça, a modelo Letícia Birkheuer passou parte deste sábado tomando banho de sol com amigos na praia de Ipanema.
De cartas e bancos
Setembro 25, 2009
Carteiros e bancários estão simultaneamente em greve esta semana. As reivindicações, justas ou não, são bem parecidas: reajuste, demandas relativas à participação nos lucros, melhoria das condições de trabalho e contratações. A imprensa faz a cobertura de sempre, acompanhando as negociações, monitorando a adesão, registrando os transtornos ao resto da população e tentando esclarecer as dúvidas práticas decorrentes da paralisação.
De um aspecto, porém, não se fala, nem nos jornais, nem nas rodinhas de conversa: em larga medida, a greve, para essas duas categorias em particular, é um tiro no pé.
Além do governo e do patronato, carteiros e bancários enfrentam um inimigo cruel, conhecido vulgarmente como alternativa. E talvez não exista melhor exemplo, por unir as duas frentes, que o boleto bancário. Comumente recebido pelo correio, pode, em muitos casos, ser impresso nos sites das empresas e bancos. Um dia figura popular nas filas das agências bancárias, tornou-se, aos poucos, mais afeito à praticidade das caixas eletrônicas e do internet banking.
A greve, nesse contexto, só incentiva os resistentes ao meio eletrônico a abandonar de vez os caminhos tradicionais. E, quanto mais gente migrar para a internet e o autoatendimento, menos força terão as categorias profissionais e mais absurdas serão reivindicações como a contratação de mais empregados.
Talvez seja uma realidade cruel. Mas não menos real por isso.
Sarkozy, Kirshners e o reino do Butão
Setembro 20, 2009
Nicolas Sarkozy – marido de Carla Bruni e também presidente da França – está tentando se transformar em um populista latino americano. Seguindo o padrão Lula, ele não sai da TV. E fala sobre tudo, de crise econômica a recomendações estatísticas.
É nessa parte que começa a se parecer com o casal Kirshner, que governa a Argentina. Sem poder intervir no INSEE, o IBGE francês, como os Kirshners fizeram no INDEC, Sarko encomendou a um grupo de marqueteiros uma crítica ao PIB como medida de referência para a economia.
O grupo de marqueteiros internacionais, comandado por Joseph Stiglitz, produziu o tal estudo e, desde então, não para de dar entrevistas e escrever na imprensa.
Uma das melhores abobrinhas nesses textos é a referência a uma medida de Felicidade Nacional Bruta, concebida no Butão (no Himalaia) para servir como indicador econômico. As matérias e artigos sobre o estudo da “Comissão Stigliz” combatem um inimigo inexistente, dizem que o PIB não pode ser usado como indicador de felicidade ou bem estar social. É verdade, não pode mesmo. Mas ninguém disse que podia. O PIB é um indicador de atividade econômica.
A “Comissão Stuglitz” então recomenda o uso de outros indicadores que já fazem parte do Sistema de Contas Nacionais – como a renda disponível das das famílias – como aproximação melhor para medidas de bem estar. Recomenda também o uso do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – que usa dados como expectativa de vida como proxy para a qualidade de vida em regiões específicas.
Até aí nada de novo. O assustador em algumas reportagens é saber que a idéia de encomendar o estudo foi do redator de discursos de Sarkozy que, aparentemente, queria números mais bonitos para pôr em seus textos.
Não é uma boa hora para mudar formas de cálculo ou fazer malabarismos com números. A Argentina vai demorar décadas para se recuperar da perda de credibilidade que o INDEC sofreu com a intervenção do governo.
E, publicidade à parte, as Contas Nacionais têm que ser feitas de acordo com manuais da ONU e – no caso da França – com regulamentações da União Européia. Sarkozy pode não gostar, pode querer obrigar o instituto de estatística a inventar outros indicadores, mas não vai conseguir fugir dos efeitos da crise (e de algumas políticas populistas da França). Eles estarão visíveis por muito tempo no PIB padrão do velho e bom Sistema de Contas Nacionais.
Se fosse mais esperto e tivesse mais amor à propria credibilidade, Sarkozy gastaria mais tempo com Carla Bruni e menos dando pitaco no que deve fazer o instituto de estatística da França.

Carla Bruni, enfastiada, espera o fim do discurso de seu marido sobre as estatísticas na França
Medo dos vinte
Setembro 5, 2009
Recessão nos EUA e uma gripe devastadora capaz de matar milhares de pessoas em todo o mundo. A História tem mesmo tendência a se repetir como farsa? Estamos vivendo uma versão menos séria dos anos 20 (do século passado)?
Nossa gripe fez muito barulho mas não chegou aos pés da gripe espanhola. Foi uma gripe para inglês ver – ou para dar matéria para pauteiros pouco criativos. E nossa crise econômica mundial (também nascida nos EUA) dá sinais de que pode acabar antes do fim do ano.
O mundo ficou mais estável? O caos não é mais o que era antigamente?
Bom, é melhor não tripudiar, porque as causas da crise ainda estão aí e o fantasma dos anos 20 ainda dá medo.

Relogio asteca, Cidade do México, Museu de Antropologia, 2009.
Dinheiro demais?
Agosto 23, 2009
É sempre estranho ver bilionáiros reclamarem de qualquer forma de excesso de dinheiro. Mas, esta semana, Warren Buffett, um dos investidores mais conhecidos do mundo, fez exatamente isso, em um artigo no New York Times.
O argumento de Buffett é, na verdade, uma conta: o déficit do governo dos EUA este ano deve ser de US$ 1,8 trilhão, ou 13% do PIB. Para cobrir o buraco, o governo americano pode pegar emprestimos com estrangeiros, pegar empréstimos com os próprios americanos ou imprimir dinheiro.
O déficit na conta corrente (conta externa) dos EUA deve ficar em torno de US$ 400 bi. Isso é igual ao que entra de dinheiro do exterior para financiar a diferença entre importações, exportações e de fluxos de renda no ano entre os EUA e o resto do mundo. Buffet supõe – para simplificar a conta – que todo esse dinheiro vá financiar o governo (os estrangeiros comprem US$ 400 em títulos do governo americano).
A segunda hipótese de Buffett é que as famílias americanas economizem US$ 500 bi este ano e apliquem todo esse dinheiro em títulos do governo. Somando tudo, dá US$ 900 bi, quer dizer, ainda faltam outros US$ 900 para fechar a conta. É essa parte que o governo vai ter que imprimir.
Ficar no vermelho um ano não é o fim do mundo mas, se o governo americano não cortar despesas (ou aumentar impostos) no próximo ano, vai ter que se financiar imprimindo dólares de novo.
Este ano, com os bancos cortando os empréstimos e as famílias segurando o consumo, o efeito de imprimir dinheiro não é tão assustador, não é inflação alta. Mas, em algum momento, os bancos vão voltar a emprestar e as famílias vão se sentir mais confiantes para fazer compras. Quando isso acontecer, o governo de lá não pode estar com as mãos amarradas, tem que ser capaz se recolher os dólares a mais que imprimiu.
Para recolher dólares, o que o governo faz é vender títulos públicos. Mas, para ele vender, alguém tem que comprar (o resto do mundo ou os poupadores americanos). Se não houver demanda por títulos, os instrumentos do governo para segurar a inflação ficarão bastante limitados.
O resumo da história é que há alguma chance de a inflação subir nos EUA nos próximos anos. E isso, ao lado do déficit externo deles, tende a desvalorizar o dólar em relação às outras moedas.
Para quem tem dólares no colchão, a recomendação é vender. Para quem faz compras na Amazon, é aproveitar o passeio, porque os preços em reais vão ficar ainda menores.

Nota extra impressa pelo governo dos EUA para pagar suas contas
Porca miséria!
Agosto 5, 2009
Mortos por gripe comum em 2008 no Brasil: 70.142.
Mortos por gripe suína em 2009 no Brasil (até 4 de agosto): 124.
Tombos, rasteiras e cascatas
Julho 21, 2009

Atenção, vizinhos que passam rasteira
- Nessa época só vêm brasileiros – explicou a vendedora de produtos artesanais – parece que vocês gostam do frio…
Estava em Pucón, no sul do Chile. Na véspera, um taxista tinha acusado a queda no movimento:
- O presidente do Brasil disse para as pessoas não virem para cá – reclamou.
Não tentei corrigir. Não faz tanta diferença se foi o presidente ou o ministro da Saúde. O que faz diferença mesmo é que o turismo caíu por lá.
A cidade, pequena, não tem muito porque se preocupar com gripes e afins. Ninguém lá parecia dar muita bola para isso. Olhando de perto, lá perto, a medida do governo brasileiro parece mais uma forma de protecionismo disfarçado. É como quando tentam barrar a importação de carne brasileira no exterior dizendo que houve um caso de febre aftosa no interior do Paraná, lá perto do Paraguai.
Estão se aproveitando da gripe para desviar os turistas pro Nordeste….

Os antigos Mapuches já reclamavam das práticas desleais do Brasil.
Preto no branco
Junho 27, 2009
O conservadorismo dos jornais americanos garantiu que a melhor primeira página com a morte de Michael Jackson saísse do… Brasil. É do Extra, a despeito do tratamento de imagem meia-bomba, como se pôde ver entre as centenas de banalidades encontráveis no Newseum. Obs.: os jornais da Europa, África, Ásia e Oceania, pelo fuso, não deram a notícia nas edições de sexta.

Uma capa decente de uma fonte improvável.
Empresários e políticos têm uma capacidade impressionante de não ver o que não lhes interessa. Não estão vendo, por exemplo, que as importações do país tomaram um tombo impressionante no primeiro trimestre (mais de 16% em volume) e que, como aqui é um lugar menos pior que vários outros nessa época de crise, o investimento de estrangeiros no Brasil tende a aumentar.
Bom, talvez isso eles até estejam vendo. O que fingem que não vêem é que essas duas coisas fazem o Real se valorizar. Não vêem também que é muito contraditório criar barreiras à importação numa época em que as importações já estão caíndo. Criando barreiras para alguns produtos, vão fazer o Real se valorizar mais – pois vai sair menos dólar para pagar pelos importados – e a vida dos exportadores vai ficar mais difícil.
Não existe mágica para controlar o câmbio. Num artigo publicado hoje no Estadão, Rogério Werneck, da PUC-RJ, tentou lembrar os leitores disso. Boa parte vai fingir que não leu e continuar falando em métodos da carochinha para controlar o câmbio.
Eu, que não influencio política nenhuma, vou aproveitar o câmbio que os industriais-incentivadores-de-barreira-alfandegária ajudam a valorizar: vou viajar nas férias, comprar dólares baratos e ir para o Chile, que está em promoção.
O Ministério da Saúde adverte que não é bom viajar para lá – o que derruba ainda mais os preços…

A crise - Museu de Belas Artes - Santiago do Chile
Homeland Security
Junho 15, 2009
As companhias aéreas brasileiras bem poderiam vender bilhetes sem identificação do passageiro. Domingo, no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, embarquei num vôo da Gol e, do saguão à aeronave, não me identifiquei uma única vez. Livre de bagagem para despachar, fiz o check-in no auto-atendimento, entrei na área de embarque e subi no avião exibindo nada além do papelzinho cuspido pela máquina. Tudo bem que o Brasil seja o país da paz e do amor, portanto imune ao terrorismo e que tais, mas para que, então, pedir nome e documento do passageiro?
Detalhe: a mocinha posicionada ao lado dos totens de auto-atendimento ainda fez a gentileza de carimbar um “DOCUMENTO CONFERIDO” no meu cartão de embarque. Depois do check-in pelo celular, a Gol inova com a conferência de documentos por raios x.
Estadão é invadido por lobistas da indústria
Junho 6, 2009
A manchete de hoje no Estado de S. Paulo é um daqueles casos de livro texto, exemplo do que não fazer para estudantes que estão aprendendo a diferença entre notícia e editorial.
Na faculdade, se aprende que a notícia deve ser tão isenta quanto possível. O editorial pode tomar partido. A manchete é a seguinte: “Brasil taxa aço importado para conter invasão chinesa”.
Para quem não se incomodou com a invasão chinsesa, vale a pena dar uma olhada na página B6 do caderno de economia. Lá, a notícia no alto da página é: ”Argentina barra mais produtos brasileiros”.
Nenhuma das duas matérias lembra que, no começo da crise internacional, presidentes de vários países se reuniram nos EUA e aprovaram um texto em que, entre outras coisas, prometem evitar o fechamento de seus mercados à concorrência estrangeira.
Na matéria de capa, o lobby das siderúrgicas contra o livre comércio vira “apelo das siderúrgicas, que estão perdendo mercado brasileiro para as importações” e o governo brasileiro aumenta as alíquotas de zero para até 14% para “proteger a indústria nacional”.
Na página B6, onde a barreira alfandegária é estrangeira, “empresários argentinos dos setores de calçados e auto-peças conseguiram impor significativas reduções nas vendas de de produtos fabricados no Brasil para a Argentina, colocando de lado o espírito de livre comércio do Mercosul.”
Não custa tanto trocar o “invasão chinesa” por “concorrência chinesa” na manchete, porque é isso que o lobby das siderúrgicas quer conter.
A própósito, o que o texto chama de invasão é um crescimento de 53,8% nas importações de aço chinês entre janeiro e abril deste ano, comparado ao mesmo período do ano passado. São R$ 61,5 milhões a mais em importações. Para um mercado do tamanho do siderúrgico, é merreca.

Lobista da indústria siderúrgica esculpido em barro - México, Museu de Antropologia
BRASIL!!!
Junho 5, 2009
A idéia inicial era comentar a fixação da imprensa – ou talvez dos leitores – por casos de pessoas que escaparam “milagrosamente” de grandes tragédias. Eis que, durante breve pesquisa, encontrei uma matéria no site do jornal O Dia, que levanta um aspecto muito mais chocante. Segue um fragmento do texto. A versão integral pode ser lida aqui.
História de quem escapou da morte
Passaporte de analista judiciário estava vencido e coreógrafo brigou para ir em outro voo
Rio – Faltavam pouco mais de duas horas para seguir para o Aeroporto Tom Jobim quando o analista judiciário João Marcelo Calaça, 37 anos, percebeu algo impensável para alguém prestes a embarcar para Paris: seu passaporte estava vencido. Além da própria frustração, teve de enfrentar a fúria do amigo, o americano Thomas Blair, 43. “Fiquei revoltado, chateado mesmo. Afinal, como é que alguém pode deixar o passaporte vencer e não percebe? Agora não estou mais chateado. Já perdoei ele”, afirmou o amigo, aliviado por não ter embarcado no voo 447 da Air France.
João Marcelo passou o dia de ontem dando entrevistas e falando sobre o milagre que salvou sua vida. “Agora tenho dois aniversários. Vou marcar esta data também. Mas apesar da felicidade e do alívio de estar vivo, estou me sentindo dividido pela tristeza, já que é uma tragédia muito grande”, disse.
A irmã do analista judiciário, Tânia, lembrou que ele poderia ter tentado embarcar, já que tinha um amigo policial federal no aeroporto: “Ele até que poderia ter insistido e tentado embarcar. Mas, de repente, desistiu. Foi um agraciado”. Os amigos só descobriram o desastre por volta das 9h, quando João Marcelo acordou e viu 25 ligações perdidas em seu celular. Ele ligou a TV e soube do desastre. “Achei que fosse piada. Imediatamente avisei à minha família”, disse Thomas.
Gestão e indigestão
Maio 22, 2009
Imagine um grupo de empresas (A, B, C e D) pertencentes ao mesmo controlador. Agora imagine que A paga um salário de R$ 6.000 a um engenheiro. Aí vem a empresa B e oferece R$ 7.000 ao engenheiro de sua co-irmã A. Depois aparece C com uma proposta irrecusável de R$ 8.000 ao sortudo profissional. E, para completar, D cobre todas as ofertas, levando o engenheiro por R$ 10.000.
Conseguiu imaginar? Nem eu.
No entanto, o nobre senador Marco Maciel não só conseguiu, como viu um grande mérito numa dinâmica se não igual no mínimo muito parecida. Ao justificar o voto favorável a reajuste para os servidores do Tribunal de Contas da União (TCU), o parlamentar alegou que a medida visa a “evitar a evasão de técnicos altamente qualificados, resultante de diferenças e defasagens salariais hoje existentes”.
Evasão para onde? Supostamente para o próprio serviço público federal.
“A possibilidade de impedir a evasão desses funcionários vincula-se à concessão de remunerações mais compatíveis com o exercício dos respectivos cargos”, insistiu Maciel.
Reconhece-se, assim, não apenas que existe uma autoconcorrência no serviço público, com órgãos disputando os servidores mais qualificados, como se vê nisso um traço de certa forma positivo.
Mais: sugere-se, nas entrelinhas, que alguns órgãos precisam de servidores mais qualificados que outros, muito embora não se diga, por conveniência, quais se posicionam de um lado e de outro ou por quê.
Aqui, o senador Maciel e o TCU são apenas os exemplos mais recentes de fenômeno que acontece há anos e que permanece inexplicado, à margem até do debate na imprensa, tão desinteressada em se opor aos servidores públicos quanto a maior parte da classe política.
Já dizia, nos idos de 1995, o famigerado Luiz Carlos Bresser-Pereira, em seu Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado:
No Brasil não há nada parecido com um sistema universal e padronizado de remuneração de servidores, do tipo existente nos países desenvolvidos, onde a administração pública burocrática alcançou pleno desenvolvimento. Ou melhor, existe o Plano de Cargos e Carreiras – PCC, que poderia preencher esse papel, mas que na verdade é apenas a situação da qual todos querem sair para integrarem carreiras específicas que, graças a seu sistema de gratificações especiais, acabam sendo razoavelmente remuneradas. No geral, o que existe é um sistema de remunerações extremamente distorcido, em que algumas carreiras, especialmente as jurídicas e, em segundo plano, as econômicas, são bem remuneradas, em função de gratificações que visariam premiar desempenho, enquanto que os demais cargos, especialmente os de nível superior do PCC, são mal pagos.
Evidentemente, Bresser foi apenas um membro da frente neoliberal que comandou o país por oito anos, promovendo uma ampla e irrestrita desvalorização do serviço público, não é mesmo? O curioso é que, até hoje, o sujeito que escreveu o diagnóstico acima, além de abominável inimigo do servidor, seja referência na maioria dos concursos que abordam o tema da gestão pública.
Talvez isso explique muita coisa. Ou não.
Metade da história
Maio 5, 2009
Quando uma história pode ser vista de vários pontos de vista, mostrar um só é, no mínimo, tendencioso. Mas foi isso que fez Paul Krugman, Nobel de economia deste ano, em sua coluna no New York Times.
Kruman resolveu alertar para os perigos da queda de salários nos EUA. Listou a redução de salários no próprio Times e na Chrysler e comentou o que pode acontecer se houver uma queda generalizada de salários nos EUA.
O primeiro problema é que não vai haver uma queda generalizada de salários nos EUA. Reduzir salários nominais é bem complicado, exige negociação com empregados em uma quantidade gigantesca de empresas. O que provavelmente acontecerá será uma mudança no valor relativo dos salários. Setores como o de medicamentos – que comemoram a gripe suina – dificilmente vão engolir uma redução de salários.
A redução então permite que os salários relativos se ajustem. Alguns setores, com a crise, vão ficar relativamente melhor do que outros. Os salários devem refletir isso para atrair pessoas dos setores que estão pior para os que estão melhor.
Isso pode acontecer com a queda de salários em alguns setores da economia ou com inflação e aumentos de salário só nos outros setores. A alternativa sem inflação parece menos dolorosa.
O segundo problema no texto de Krugman é que ele prevê um cenário de estagnação e deflação reforçado por uma queda de salários. Ele lembra o caso do Japão, onde os salários cairam durante a crise. Bom, faltou lembrar a Argentina do começo da década. Quando os argentinos travaram o valor do peso (1 peso = 1 dolar) os economistas concordaram que o único jeito de eles voltarem a ter competitividade internacional e corrigirem seu déficit no comércio externo era reduzir os salários.
Eles não fizeram isso. Preferiram desvalorizar a moeda e dar um calote na dívida (que estava quase toda em dólares).
Para os americanos também, reduzir os salários vai ajudar a reequilibrar as contas externas, vai fazer os produtos nacionais ficarem mais baratos no exterior e vai diminuir as importações – já que renda do trabalho vai cair. A alternativa, como no caso argentino, é desvalorizar mais o dólar.
Por fim, Krugman parece muito preocupado com uma possível deflação nos EUA. Mas com taxa de juros a zero e o governo gastando trilhões em pacotes de socorro e estímulo econômico, não dá para dizer com essa convição toda que os preços dos bens de consumo vão despencar. Há até o risco de que haja inflação alta daqui a dois ou três anos.
Mas Krugman, ao lado de Kenneth Rogoff, Gregory Mankiw e outros acadêmicos ilustres, parece não dar muita bola para o nosso velho dragão.

Camile Claudel após a redução de salário - Museu Rodin
Transporte Caracu
Abril 30, 2009
As chibatadas de Madureira trouxeram à pauta da imprensa, pela enésima vez, a questão do transporte público no Rio de Janeiro. O abuso dos seguranças da SuperVia ensejou, por decorrência lógica, uma análise da (falta de) qualidade do serviço de trens urbanos no estado. Análise como de hábito furada.
Hoje, todo o transporte público no Rio é operado por empresas privadas, detentoras de concessão. Além da Supervia, são responsáveis pela mobilidade do cidadão fluminense Opportrans, Barcas S/A e uma infinidade de empresas de ônibus. Nem São Paulo é assim.
De tempos em tempos, a imprensa acorda para questões como a superlotação, a falta de capilaridade do sistema, a inconstância do serviço, as tarifas e, pasmem, até a violência física no trato com o usuário do serviço. Serviço público. E começa, para usar uma expressão na moda, a “testar hipóteses”.
Falta fiscalização? Falta planejamento? Falta vergonha na cara? As perguntas são sempre iguais, e as respostas, por alguma razão que foge à compreensão, sempre vagas. Mais: considera-se natural que, a despeito da privatização dos lucros, o Estado continue injetando dinheiro na forma de compra de equipamentos ou de subsídios. (Alguém aí falou em socialização dos prejuízos?)
O que mais espanta, porém, é o desinteresse pela comparação com as grandes cidades dos países ricos, recurso tão usado em outras pautas. Como é o transporte público em Nova York? E em Paris? E em Madri? Em tempos de internet e Google, para não falar de correspondentes e colaboradores espalhados pelo mundo, deve ser difícil fazer a checagem.
Pois é assim: em Nova York, todo o transporte é operado pela Metropolitan Transit Authority (MTA), corporação pública; em Paris, pela Régie Autonome des Transports Parisiens (RATP), empresa pública; e em Madri, pelo Consorcio Regional de Transportes de Madrid (CRTM), formado majoritariamente por empresas públicas.
E por que essas cidades (e muitas outras) mantêm o transporte público na esfera estatal? Porque transporte público eficiente e universal é deficitário. Vejam que a ordem dos fatores altera, sim, o produto. Aqui, o transporte público, embora privatizado, também é deficitário (para o Estado). Mas é uma m… iríade de problemas.
Não sei se a imprensa não fala disso porque é cega ou porque não vê.
O apocalipse é hoje!
Abril 27, 2009
Sinopse de filme surreal do tipo “o apocalipse é hoje”
Uma grande crise leva à falência os maiores bancos de Estados Unidos, Inglaterra, Suíça etc. As pessoas começam a juntar dinheiro, antecipando uma temporada de caos econômico. Os preços de tudo começam a cair. Políticos e participantes do BBB aparecem na TV dando declarações evasivas sobre a crise. Os primeiros liberam trilhões de dólares para socorrer bancos e empresas (que não param de demitir funcionários). Os segundos dizem que, se ganharem um milhão de reais, não precisarão se preocupar com isso.
Para completar, grandes chuvas, tufões e terremotos italianos começam a dar a impressão de que alguma coisa está errada com o clima – e não só com ele.
Uma nova praga, conhecida como gripe porca, ameaça se espalhar pelo mundo e políticos populistas dão declarações bombásticas sobre doença – enquanto posam para fotos fingindo que se esforçam para contê-la.
Uma seita de profetas do apocalipse começa a pregar que todos devem cavar grandes abrigos para se proteger da crise (sem explicar como o cavar abrigos vai adiantar alguma coisa). Uma seita concorrente anuncia na TV que a solução é mudar de planeta (e recomenda Plutão).
Um terceiro grupo, os Adoradores da curva do sino, diz que o fim do mundo é altamente improvável (pois não há nenhum registro de que algo assim já tenha acontecido).
As chuvas aumentam e mais dois bancos vão à falência.
As seitas começam a crescer – só não crescem mais por causa da gripe porca – e a idéia de cavar abrigos para se proteger começa a parecer uma boa alternativa.

Peste - Museu de antropologia (fechado até o fim da epidemia) - Cidade do México