Preto no branco

Junho 27, 2009

O conservadorismo dos jornais americanos garantiu que a melhor primeira página com a morte de Michael Jackson saísse do… Brasil. É do Extra, a despeito do tratamento de imagem meia-bomba, como se pôde ver entre as centenas de banalidades encontráveis no Newseum. Obs.: os jornais da Europa, África, Ásia e Oceania, pelo fuso, não deram a notícia nas edições de sexta.

Uma capa decente de uma fonte improvável.

Uma capa decente de uma fonte improvável.

Empresários e políticos têm uma capacidade impressionante de não ver o que não lhes interessa. Não estão vendo, por exemplo, que as importações do país tomaram um tombo impressionante no primeiro trimestre (mais de 16% em volume) e que, como aqui é um lugar menos pior que vários outros nessa época de crise, o investimento de estrangeiros no Brasil tende a aumentar.

Bom, talvez isso eles até estejam vendo. O que fingem que não vêem é que essas duas coisas fazem o Real se valorizar. Não vêem também que é muito contraditório criar barreiras à importação numa época em que as importações já estão caíndo. Criando barreiras para alguns produtos, vão fazer o Real se valorizar mais – pois vai sair menos dólar para pagar pelos importados – e a vida dos exportadores vai ficar mais difícil.

Não existe mágica para controlar o câmbio. Num artigo publicado hoje no Estadão, Rogério Werneck, da PUC-RJ, tentou lembrar os leitores disso. Boa parte vai  fingir que não leu e continuar falando em métodos da carochinha para controlar o câmbio.

Eu, que não influencio política nenhuma, vou aproveitar o câmbio que os industriais-incentivadores-de-barreira-alfandegária ajudam a valorizar: vou viajar nas férias, comprar dólares baratos e ir para o Chile, que está em promoção.

O Ministério da Saúde adverte que não é bom viajar para lá – o que derruba ainda mais os preços…

A crise - Museu de Belas Artes - Santiago do Chile

A crise - Museu de Belas Artes - Santiago do Chile

Homeland Security

Junho 15, 2009

As companhias aéreas brasileiras bem poderiam vender bilhetes sem identificação do passageiro. Domingo, no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, embarquei num vôo da Gol e, do saguão à aeronave, não me identifiquei uma única vez. Livre de bagagem para despachar, fiz o check-in no auto-atendimento, entrei na área de embarque e subi no avião exibindo nada além do papelzinho cuspido pela máquina. Tudo bem que o Brasil seja o país da paz e do amor, portanto imune ao terrorismo e que tais, mas para que, então, pedir nome e documento do passageiro?

Detalhe: a mocinha posicionada ao lado dos totens de auto-atendimento ainda fez a gentileza de carimbar um “DOCUMENTO CONFERIDO” no meu cartão de embarque. Depois do check-in pelo celular, a Gol inova com a conferência de documentos por raios x.

A manchete de hoje no Estado de S. Paulo é um daqueles casos de livro texto, exemplo do que não fazer para estudantes que estão aprendendo a diferença entre notícia e editorial.

Na faculdade, se aprende que a notícia deve  ser tão isenta quanto possível. O editorial pode tomar partido. A manchete é a seguinte: “Brasil taxa aço importado para conter invasão chinesa”.

Para quem não se incomodou com a invasão chinsesa, vale a pena dar uma olhada na página B6 do caderno de economia. Lá, a notícia no alto da página é:  ”Argentina barra mais produtos brasileiros”.

Nenhuma das duas matérias lembra que, no começo da crise internacional, presidentes de vários países se reuniram nos EUA e aprovaram um texto em que, entre outras coisas, prometem evitar o fechamento de seus mercados à concorrência estrangeira.

Na matéria de capa, o lobby das siderúrgicas contra o livre comércio vira “apelo das siderúrgicas, que estão perdendo mercado brasileiro para as importações” e o governo brasileiro aumenta as alíquotas de zero para até 14% para “proteger a indústria nacional”.

Na página B6, onde  a barreira alfandegária é estrangeira, “empresários argentinos dos setores de calçados e auto-peças conseguiram impor significativas reduções nas vendas de de produtos fabricados no Brasil para a Argentina, colocando de lado o espírito de livre comércio do Mercosul.”

Não custa tanto trocar o “invasão chinesa” por “concorrência chinesa” na manchete, porque é isso que o lobby das siderúrgicas quer conter.

A própósito, o que o texto chama de invasão é um crescimento de 53,8% nas importações de aço chinês entre janeiro e abril deste ano, comparado ao mesmo período do ano passado. São R$ 61,5 milhões a mais em importações. Para um mercado do tamanho do siderúrgico, é merreca.

Lobista da indústria siderúrgica esculpido em pedra - México, Museu de Antropologia

Lobista da indústria siderúrgica esculpido em barro - México, Museu de Antropologia

BRASIL!!!

Junho 5, 2009

A idéia inicial era comentar a fixação da imprensa – ou talvez dos leitores – por casos de pessoas que escaparam “milagrosamente” de grandes tragédias. Eis que, durante breve pesquisa, encontrei uma matéria no site do jornal O Dia, que levanta um aspecto muito mais chocante. Segue um fragmento do texto. A versão integral pode ser lida aqui.

História de quem escapou da morte
Passaporte de analista judiciário estava vencido e coreógrafo brigou para ir em outro voo

Rio – Faltavam pouco mais de duas horas para seguir para o Aeroporto Tom Jobim quando o analista judiciário João Marcelo Calaça, 37 anos, percebeu algo impensável para alguém prestes a embarcar para Paris: seu passaporte estava vencido. Além da própria frustração, teve de enfrentar a fúria do amigo, o americano Thomas Blair, 43. “Fiquei revoltado, chateado mesmo. Afinal, como é que alguém pode deixar o passaporte vencer e não percebe? Agora não estou mais chateado. Já perdoei ele”, afirmou o amigo, aliviado por não ter embarcado no voo 447 da Air France.

João Marcelo passou o dia de ontem dando entrevistas e falando sobre o milagre que salvou sua vida. “Agora tenho dois aniversários. Vou marcar esta data também. Mas apesar da felicidade e do alívio de estar vivo, estou me sentindo dividido pela tristeza, já que é uma tragédia muito grande”, disse.

A irmã do analista judiciário, Tânia, lembrou que ele poderia ter tentado embarcar, já que tinha um amigo policial federal no aeroporto: “Ele até que poderia ter insistido e tentado embarcar. Mas, de repente, desistiu. Foi um agraciado”. Os amigos só descobriram o desastre por volta das 9h, quando João Marcelo acordou e viu 25 ligações perdidas em seu celular. Ele ligou a TV e soube do desastre. “Achei que fosse piada. Imediatamente avisei à minha família”, disse Thomas.

Gestão e indigestão

Maio 22, 2009

Imagine um grupo de empresas (A, B, C e D) pertencentes ao mesmo controlador. Agora imagine que A paga um salário de R$ 6.000 a um engenheiro. Aí vem a empresa B e oferece R$ 7.000 ao engenheiro de sua co-irmã A. Depois aparece C com uma proposta irrecusável de R$ 8.000 ao sortudo profissional. E, para completar, D cobre todas as ofertas, levando o engenheiro por R$ 10.000.

Conseguiu imaginar? Nem eu.

No entanto, o nobre senador Marco Maciel não só conseguiu, como viu um grande mérito numa dinâmica se não igual no mínimo muito parecida. Ao justificar o voto favorável a reajuste para os servidores do Tribunal de Contas da União (TCU), o parlamentar alegou que a medida visa a “evitar a evasão de técnicos altamente qualificados, resultante de diferenças e defasagens salariais hoje existentes”.

Evasão para onde? Supostamente para o próprio serviço público federal.

“A possibilidade de impedir a evasão desses funcionários vincula-se à concessão de remunerações mais compatíveis com o exercício dos respectivos cargos”, insistiu Maciel.

Reconhece-se, assim, não apenas que existe uma autoconcorrência no serviço público, com órgãos disputando os servidores mais qualificados, como se vê nisso um traço de certa forma positivo.

Mais: sugere-se, nas entrelinhas, que alguns órgãos precisam de servidores mais qualificados que outros, muito embora não se diga, por conveniência, quais se posicionam de um lado e de outro ou por quê.

Aqui, o senador Maciel e o TCU são apenas os exemplos mais recentes de fenômeno que acontece há anos e que permanece inexplicado, à margem até do debate na imprensa, tão desinteressada em se opor aos servidores públicos quanto a maior parte da classe política.

Já dizia, nos idos de 1995, o famigerado Luiz Carlos Bresser-Pereira, em seu Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado:

No Brasil não há nada parecido com um sistema universal e padronizado de remuneração de servidores, do tipo existente nos países desenvolvidos, onde a administração pública burocrática alcançou pleno desenvolvimento. Ou melhor, existe o Plano de Cargos e Carreiras – PCC, que poderia preencher esse papel, mas que na verdade é apenas a situação da qual todos querem sair para integrarem carreiras específicas que, graças a seu sistema de gratificações especiais, acabam sendo razoavelmente remuneradas. No geral, o que existe é um sistema de remunerações extremamente distorcido, em que algumas carreiras, especialmente as jurídicas e, em segundo plano, as econômicas, são bem remuneradas, em função de gratificações que visariam premiar desempenho, enquanto que os demais cargos, especialmente os de nível superior do PCC, são mal pagos.

Evidentemente, Bresser foi apenas um membro da frente neoliberal que comandou o país por oito anos, promovendo uma ampla e irrestrita desvalorização do serviço público, não é mesmo? O curioso é que, até hoje, o sujeito que escreveu o diagnóstico acima, além de abominável inimigo do servidor, seja referência na maioria dos concursos que abordam o tema da gestão pública.

Talvez isso explique muita coisa. Ou não.

Metade da história

Maio 5, 2009

 

Em seu texto mais recente para o Times, Kruman resolveu alertar para os perigos da queda de salários nos EUA. Listou a redução de salários no próprioTimes e na Chrysler e comentou o que pode acontecer se houver uma queda generalizada de salários nos EUA. 
O primeiro problema é que não vai haver uma queda generalizada de salários nos EUA. Reduzir salários nominais é bem complicado, exige negociação com empregados em uma quantidade gigantesca de empresas. Para ser generalizada, a redução tem que acontecer em toda parte. Se não for assim, o que haverá será uma  mudança no valor relativo dos salários. Setores como o de medicamentos – que comemoram a gripe suina – dificilmente vão engolir uma redução de salários. 
A redução então permite que os salários relativos se ajustem. Alguns setores, com a crise, vão ficar relativamente melhor do que outros. Os salários devem refletir isso para atrair pessoas dos setores que estão pior para os que estão melhor. 
Isso pode acontecer com a queda de salários em alguns setores da economia ou com inflação e aumentos de salário só nos outros setores. A alternativa sem inflação parece menos dolorosa. 
O segundo problema no texto de Krugman é que ele prevê um cenário de estagnação e deflação causado por uma queda de salários. Ele lembra o caso do Japão, onde os salários cairam durante a crise (sem deixar claro que a queda foi efeito e não causa da crise). Bom, faltou lembrar a Argentina do começo da década. Quando os argentinos travaram o valor do peso (1 peso = 1 dolar) os economistas concordaram que o único jeito de eles voltarem a ter competitividade internacional e corrigirem seu déficit no comércio externo era reduzir os salários. 
Eles não fizeram isso. Preferiram desvalorizar a moeda e dar um calote na dívida (que estava quase toda em dólares). 
Para os americanos também, reduzir os salários vai ajudar a reequilibrar as contas externas, vai fazer os produtos nacionais ficarem mais baratos no exterior e vai diminuir as importações – já que  renda do trabalho vai cair. A alternativa, como no caso argentino, é desvalorizar mais o dólar. 
Por fim, Krugman parece muito preocupado com uma possível deflação nos EUA. Mas com taxa de juros a zero e o governo gastando trilhões em pacotes de socorro e estímulo econômico, não dá para dizer com essa convição toda que os preços dos bens de consumo vão despencar. Há até o risco de que haja inflação alta daqui a uns dois ou três anos. 
Mas Krugman, ao lado de Kenneth Rogoff, Gregory Mankiw e outros acadêmicos ilustres, parece não dar muita bola para o nosso velho dragão.  

Quando uma história pode ser vista de vários pontos de vista, mostrar um só é, no mínimo, tendencioso. Mas foi isso que fez Paul Krugman, Nobel de economia deste ano, em sua coluna no New York Times

Kruman resolveu alertar para os perigos da queda de salários nos EUA. Listou a redução de salários no próprio Times e na Chrysler e comentou o que pode acontecer se houver uma queda generalizada de salários nos EUA. 

 O primeiro problema é que não vai haver uma queda generalizada de salários nos EUA. Reduzir salários nominais é bem complicado, exige negociação com empregados em uma quantidade gigantesca de empresas. O que provavelmente acontecerá será uma  mudança no valor relativo dos salários. Setores como o de medicamentos – que comemoram a gripe suina – dificilmente vão engolir uma redução de salários. 

A redução então permite que os salários relativos se ajustem. Alguns setores, com a crise, vão ficar relativamente melhor do que outros. Os salários devem refletir isso para atrair pessoas dos setores que estão pior para os que estão melhor. 

Isso pode acontecer com a queda de salários em alguns setores da economia ou com inflação e aumentos de salário só nos outros setores. A alternativa sem inflação parece menos dolorosa. 

O segundo problema no texto de Krugman é que ele prevê um cenário de estagnação e deflação reforçado por uma queda de salários. Ele lembra o caso do Japão, onde os salários cairam durante a crise. Bom, faltou lembrar a Argentina do começo da década. Quando os argentinos travaram o valor do peso (1 peso = 1 dolar) os economistas concordaram que o único jeito de eles voltarem a ter competitividade internacional e corrigirem seu déficit no comércio externo era reduzir os salários. 

Eles não fizeram isso. Preferiram desvalorizar a moeda e dar um calote na dívida (que estava quase toda em dólares). 

Para os americanos também, reduzir os salários vai ajudar a reequilibrar as contas externas, vai fazer os produtos nacionais ficarem mais baratos no exterior e vai diminuir as importações – já que  renda do trabalho vai cair. A alternativa, como no caso argentino, é desvalorizar mais o dólar. 

Por fim, Krugman parece muito preocupado com uma possível deflação nos EUA. Mas com taxa de juros a zero e o governo gastando trilhões em pacotes de socorro e estímulo econômico, não dá para dizer com essa convição toda que os preços dos bens de consumo vão despencar. Há até o risco de que haja inflação alta daqui a dois ou três anos. 

Mas Krugman, ao lado de Kenneth Rogoff, Gregory Mankiw e outros acadêmicos ilustres, parece não dar muita bola para o nosso velho dragão.

 

Camile Claudel após a redução de salário - Museu Rodin

Camile Claudel após a redução de salário - Museu Rodin

Transporte Caracu

Abril 30, 2009

As chibatadas de Madureira trouxeram à pauta da imprensa, pela enésima vez, a questão do transporte público no Rio de Janeiro. O abuso dos seguranças da SuperVia ensejou, por decorrência lógica, uma análise da (falta de) qualidade do serviço de trens urbanos no estado. Análise como de hábito furada.

Hoje, todo o transporte público no Rio é operado por empresas privadas, detentoras de concessão. Além da Supervia, são responsáveis pela mobilidade do cidadão fluminense Opportrans, Barcas S/A e uma infinidade de empresas de ônibus. Nem São Paulo é assim.

De tempos em tempos, a imprensa acorda para questões como a superlotação, a falta de capilaridade do sistema, a inconstância do serviço, as tarifas e, pasmem, até a violência física no trato com o usuário do serviço. Serviço público. E começa, para usar uma expressão na moda, a “testar hipóteses”.

Falta fiscalização? Falta planejamento? Falta vergonha na cara? As perguntas são sempre iguais, e as respostas, por alguma razão que foge à compreensão, sempre vagas. Mais: considera-se natural que, a despeito da privatização dos lucros, o Estado continue injetando dinheiro na forma de compra de equipamentos ou de subsídios. (Alguém aí falou em socialização dos prejuízos?)

O que mais espanta, porém, é o desinteresse pela comparação com as grandes cidades dos países ricos, recurso tão usado em outras pautas. Como é o transporte público em Nova York? E em Paris? E em Madri? Em tempos de internet e Google, para não falar de correspondentes e colaboradores espalhados pelo mundo, deve ser difícil fazer a checagem.

Pois é assim: em Nova York, todo o transporte é operado pela Metropolitan Transit Authority (MTA), corporação pública; em Paris, pela Régie Autonome des Transports Parisiens (RATP), empresa pública; e em Madri, pelo Consorcio Regional de Transportes de Madrid (CRTM), formado majoritariamente por empresas públicas.

E por que essas cidades (e muitas outras) mantêm o transporte público na esfera estatal? Porque transporte público eficiente e universal é deficitário. Vejam que a ordem dos fatores altera, sim, o produto. Aqui, o transporte público, embora privatizado, também é deficitário (para o Estado). Mas é uma m… iríade de problemas.

Não sei se a imprensa não fala disso porque é cega ou porque não vê.

O apocalipse é hoje!

Abril 27, 2009

Sinopse de filme surreal do tipo “o apocalipse é hoje”

Uma grande crise leva à falência os maiores bancos de Estados Unidos, Inglaterra, Suíça etc. As pessoas começam a juntar dinheiro, antecipando uma temporada de caos econômico. Os preços de tudo começam a cair. Políticos e participantes do BBB aparecem na TV dando declarações evasivas sobre a crise. Os primeiros liberam trilhões de dólares para socorrer bancos e empresas (que não param de demitir funcionários). Os segundos dizem que, se ganharem um milhão de reais, não precisarão se preocupar com isso.

Para completar, grandes chuvas, tufões e terremotos italianos começam a dar a impressão de que alguma coisa está errada com o clima – e não só com ele.

Uma nova praga, conhecida como gripe porca, ameaça se espalhar pelo mundo e políticos populistas dão declarações bombásticas sobre doença – enquanto posam para fotos fingindo que se esforçam para contê-la.

Uma seita de profetas do apocalipse começa a pregar que todos devem cavar grandes abrigos para se proteger da crise (sem explicar como o cavar abrigos vai adiantar alguma coisa). Uma seita concorrente anuncia na TV que a solução é mudar de planeta (e recomenda Plutão).

Um terceiro grupo, os Adoradores da curva do sino, diz que o fim do mundo é altamente improvável (pois não há nenhum registro de que algo assim já tenha acontecido).

As chuvas aumentam e mais dois bancos vão à falência. 

As seitas começam a crescer – só não crescem mais por causa da gripe porca – e a idéia de cavar abrigos para se proteger começa a parecer uma boa alternativa.

 

Peste - Museu de antropologia (fechado até o fim da epidemia) - Cidade do México

Peste - Museu de antropologia (fechado até o fim da epidemia) - Cidade do México

O canto do cisne

Abril 24, 2009

A crise americana é uma mistura de bolha, desequilíbrio macroeconômico e lambança financeira.

A bolha – que todo mundo sabia que estava para estourar – era a dos preços dos imóveis. O desequilíbrio, também conhecido, já tinha apelido há anos. Os jornais o chamavam de  “déficits gêmeos”. Era a junção do déficit nas contas do governo americano com o déficit nas contas externas dos EUA.

Os déficits gêmeos indicavam que as coisas não podiam ficar como estavam por muito tempo. E, quanto mais demorasse para começar o ajuste, mais forte ele teria que ser.

A surpresa da crise foi a lambança financeira, a quebradeira dos bancos. Até o ex-presidente do FED Alan Greenspan confessou que estava surpreso com a situação dos bancos (que ele deveria ter fiscalizado).

O que aconteceu com os bancos americanos só pode ser explicado por uma mistura de conspiração, risco moral e arrogância.

A conspiração apareceu nos últimos meses antes da crise, quando os bancos já sabiam que estavam quebrados mas ficavam quietos, se fingindo de vivos. O então presidente do Citibank se descuidou em uma entrevista e disse “we are still dancing”, quando lhe perguntaram como estava a saúde financeira do banco.

O risco moral (moral hazard) explica boa parte do caos bancário. Presidentes e diretores dos grandes bancos americanos ficaram milionários enquanto seus bancos navegavam para o abismo. Eles tomaram decisões que aumentavam o lucro no curto prazo (garantindo seus bônus de fim de ano) e aumentavam os riscos para o longo prazo (quando talvez já nem trabalhassem mais no banco).

A terceira parte da lambança bancária também é  interessante. Além de temerários em algumas decisões, analistas de risco de grandes bancos americanos foram incrivelmente arrogantes. Eles confiaram absurdamente na própria capacidade de estimar riscos e se expuseram a esses riscos sem provisões de recursos para o caso de alguma coisa sair errada. Tiveram tanta confiança em seus modelinhos que não se preocuparam em fazer qualquer tipo de seguro ou aplicação na outra ponta para o caso de o cenário mudar.

Uma boa análise do lado financeiro da crise está neste link para um debate com Daniel Kahneman (psicólogo que ganhou o Nobel de economia) e Nassim Taleb, autor do livro The black swan – the impact of the highly improbable.

Os primeiros oito minutos do vídeo são só apresentação dos debatedores e do ciclo de palestras. A parte boa começa em 8min00.

Pato/Cisne negro da crise

Pato/Cisne negro da crise

Ladeira a baixo

Abril 24, 2009

Em 2000, no dia do tombo da Nasdaq, eu estava em frente a um terminal da Bloombeg, traduzindo notinhas para uma agência de notícias brasileira. Esse era o meu trabalho na época.

As primeiras notas sobre a crise tinham apenas o tamanho da queda (maior a cada nota) no índice da bolsa americana. Depois começamos a tentar entender o que estava acontecendo.

O repórter que me substituía em frente ao terminal chegou e me despedi dizendo que ia voltar para casa – se ainda houvesse casa.

Era estranho ver o tom de apocalipse nas notícias internacionais e não conseguir imaginar como aquilo poderia ter algum efeito sobre a vida dos mortais comuns aqui no Brasil.

E acabou não tendo. Foi a tal crise em V. As ações caíram, as ações subiram e todos viveram felizes até a crise seguinte.

Oito anos depois veio a crise seguinte. Ela veio mais de vagar: está crescendo há quase um ano. E não é em V.

Nessa crise, dá pra ver o que significa a queda na riqueza, o que acontece quando alguns milhões de pessoas descobrem que são menos ricas do que pensavam (elas passam a comprar menos). E dá pra ver como isso afeta a vida de agricultores no interior da África (o preço do que eles vendem cai).

A outra crise afetou pouco o consumo. A atual veio de uma bolha no preço dos imóveis (com imóveis comprados com empréstimos e a responsabilidade pelos empréstimos repassada a bancos mal administrados). O nó é maior e mais complicado.

Mas isso não é novidade. A notícia ruim da semana é que as previsões para o futuro continuam piorando. A última projeção do FMI foi bem abaixo das anteriores.

E a outra notícia ruim é que os políticos daqui – notadamente o presidente – reclamaram da previsão, em vez de assumir que a crise ainda vai longe.

Portal da crise - Museu D'Orsay

Portal da crise - Museu D'Orsay

Nada é menos confiável do que previsão de economista. Algumas cartomantes têm históricos melhores.

A Goldman Sachs, por exemplo, previu, há pouco mais de um ano, que o barril de petróleo poderia chegar a US$ 200. Feita a previsão, os preços começaram a cair e estão hoje em torno de US$ 50.

Esses erros de previsão têm efeitos colaterais curiosos. Graças a esse do petróleo, podemos ver Hugo Chaves mais manso, agora que o seu principal produto de exportação vale muito menos do que esperava.

Mas, se a previsão em si não vale muita coisa, a explicação sobre como foi feita talvez seja mais ou menos útil.

As taxas de câmbio, por exemplo, devem mudar. O dólar deve cair mais.

Por quê? Porque, apesar da crise, os EUA continuam com um déficit comercial respeitável (US$ 797,1 bilhões entre fevereiro de 2008 e janeiro de 2009), quer dizer, eles continuam importando mais do que exportam. Com isso, jogam mais dólares no mercado externo (quando importam) do que tiram de volta (quando exportam). A grande oferta de dólares contribui para derrubar seu preço, sua cotação em outras moedas.

A conta corrente – que inclui, além do comércio, a renda enviada e recebida de outros países – teve um rombo de US$ 673,3 bilhões em 12 meses, ou 3,3% do PIB americano. E os juros – de 0,5% ao ano – também não são muito atraentes para quem pensa em investir em títulos do governo americano.

Até agora quem fechava a conta externa dos EUA eram os investimentos estrangeiros (de China e Japão, principalmente), mas eles devem diminuir.

Mas duas coisas complicam as contas: a primeira é que União Européia e Reino Unido também têm déficits em conta corrente (1,0% e 1,7% do PIB respectivamente); a segunda é a valorização que o dólar teve desde o começo da crise  – o que, à primeira vista, não faz muito sentido.

Mas, olhando com mais calma, podemos imaginar que a valorização do dólar teve mais a ver com investidores vendendo o que tinham  (aqui, na Europa e na Inglaterra) para tapar rombos financeiros nos EUA.

Passado esse primeiro efeito, voltamos às tendências de longo prazo, quer dizer, à tendência de que o dólar caia em relação a outras moedas (ao real, inclusive).

Melhor para quem viaja e compra muamba, pior para quem investe nos Estados Unidos (ou exporta para lá).

Meditações sobre o câmbio

Zhou Xiaochuan, presidente do BC chinês: "Deveríamos substituir o dólar por alguma coisa melhor."

A velha tese de que quem não estuda a História a repete (como farsa) está começando a ficar grotesca.

Eu sei: o que acontece no Estado do Rio não atrai a atenção de toda a América Latina. Mas valia a pena pesquisar os precendentes antes de desistir do almoço.

A chamada de capa do site do Globo resume bem a notícia:

“Evo Morales começa greve de fome para ter direito à reeleição”

Fome de poder - México - Museu de Antropologia - 2009

Fome de poder - México - Museu de Antropologia - 2009

Por razões mais ou menos óbvias, não houve muito destaque nos meios de comunicação, mas o fato é que o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) divulgou esta semana um interessante estudo (PDF) sobre o serviço público nacional. A conclusão, não exatamente inédita, é enfática: “não está havendo, nos últimos anos, um ‘inchaço’ do Estado” no Brasil. A base para tal afirmação é um levantamento indicando que, por aqui, o emprego público responde por apenas 10,7% do total de ocupados, o que representaria pouco diante dos índices registrados na Dinamarca (39,2%), na França (24,9%) e até nos Estados Unidos (14,8%), “caracterizados por seu caráter privatista”. Entre os primos pobres da América Latina, o Brasil também sai bem na foto, atrás de Panamá, Costa Rica, Uruguai, Argentina, Paraguai e República Dominicana.

Tudo, ou só, isso leva o Ipea a vaticinar que “há espaço para o crescimento do estoque e da participação relativa do emprego público no Brasil”. Na verdade, segundo o instituto, existe “a necessidade de ampliação do emprego público” para o “fortalecimento da democracia”. Ou seja, o Brasil tem poucos servidores e precisa de mais, muito mais.

Precisa? Talvez sim, talvez não.

De uma ou de outra forma, seria uma boa idéia tentar desenhar outros quadros, mais complexos é verdade, porém certamente dentro das possibilidades investigativas do Ipea:

Qual é a relação entre as remunerações médias no serviço público e na iniciativa privada nos diferentes países?

Como se compara a qualidade do serviço público nos diferentes países?

Dos “poucos” servidores públicos no Brasil quantos de fato trabalham?

Massacrar o serviço público, indiscriminadamente, é um absurdo. Exatamente como absolvê-lo com base em dados superficiais.

Imagine que o governo americano anunciasse hoje que, daqui a cinco anos, vai aumentar – bastante – os impostos. O que os consumidores gringos fariam?

O que quer que seja, é bom eles já irem começando a fazer. A estimativa do Escritório de Orçamento do Congresso americano para o déficit público de lá subiu para US$ 1,85 trilhão. Isso quer dizer que a dívida do governo deve subir US$ 1,85 tri este ano e, algum dia, a arrecadação vai ter que aumentar para o governo re-equilibrar as contas (e pagar parte da dívida).

O aumento de impostos pode não acontecer daqui a cinco anos, nem daqui a dez. Mas, para as famílias preocupadas com o futuro de seus filhos e netos, um déficit público gigante é um estímulo para poupar.

O fantasma de David Ricardo não assombra os governos apenas quando criam barreiras alfandegárias (que empobrecem os países, segundo o princípio das vantagens comparativas de Ricardo). Quando aumentam absurdamente suas dívidas, os governos também batem de frente com o economista inglês.

Mas, diferente da teoria das vantagens comparativas, a equivalência ricardiana  - a idéia de que as famílias podem poupar para enfrentar um aumento futuro de impostos – nunca foi comprovada na prática. 

Se não servir para mais nada, essa crise vai, pelo menos, aumentar a quantidade de números nos bancos de dados – e talvez, algum dia, ajudar a provar a tese de Ricardo.

O mundo é complicado e as famílias estão gastando menos por vários motivos. O aumento do gasto público estimula a demanda mas, quando aumenta o déficit público, pode gerar um efeito contrário também (não se sabe de que tamanho).

O resumo da história é que os efeitos da política do governo americano para combater a crise são menos previsíveis do que parecem. E, sim, aumentar a dívida pública pode desestimular – ainda mais – o consumo das famílias nos próximos anos. 

 

Consumidores em época de crise - Museu Rodin - 2008

Consumidores em época de crise - Museu Rodin - 2008

Bons economistas têm traçado o futuro da crise americana a partir de três cenários simplificados: a crise em V, a crise em U e – o mais assustador – a crise em L. A crise em V é aquela em que a economia cai rápido e se recupera rápido. O exemplo mais citado é a crise das pontocom, no começo de 2000.

 A crise de 2000 foi relativamente pequena, com queda rápida nos preços das ações de empresas de internet e retorno rápido ao crescimento. Nesse caso, a crise foi só um ajuste de preços (das ações). E, quanto mais rápido os preços chegassem ao fundo do poço, mais cedo as ações encontrariam compradores, mais rápido mercado voltaria a funcionar e mais rápido também a crise passaria.

Mas a crise atual não vai ser em V. Já não é em V. O problema é que o ajuste de agora foi muito mais forte. Para ter uma boa idéia do que aconteceu, é preciso rever a velha diferença entre renda e riqueza. Renda é o que você ganha por trabalhar, por alugar um imóvel ou por ser sócio de uma empresa. A soma das rendas geradas no país é o PIB. Riqueza é o que foi acumulado pelos habitantes do país e por seus ancestrais, é a poupança acumulada (descontado seu desgaste natural ao logo do tempo) são os prédios, as estradas, as empresas e até as jóias no cofre.

O que aconteceu nos EUA foi uma queda brusca da riqueza. Como a riqueza é muito maior que a renda gerada em um ano (o PIB), quando ela despenca, as pessoas percebem que vão demorar muitos anos para repor o que achavam que tinham.

Derepende, os americanos, endividados até o pescoço, descobriram que seus apartamentos valiam bem menos do que eles pensavam, que suas ações também estavam com preço inflado e eles mesmos vão demorar mais para poder se aposentar.

Então voltaram a economizar. E vão ficar assim, consumindo menos, por muito tempo.

Essa crise não vai ser em V porque o problema não é só o de ajustar os preços das ações ou das casas. O problema é reorganizar a economia inteira já que, com a queda do consumo, cai a produção (de casas, de carros e de tudo que se comprava confiando na riqueza estocada).

Boa parte do povo que produzia carros e casas vai ter que arrumar outro emprego vai ter aprender outra profissão e encontrar um serviço para oferecer no meio da crise. Talvez surjam mais professores e médicos, mas isso não vai ser rápido.  A coisa tem mais cara de L que de U.

O governo gringo faz o que pode, estimula o consumo para fazer com que o impacto da crise venha mais de vagar, para que as pessoas tenham mais tempo para se ajustar ao novo cenário – com menos consumo de casas, carros e afins. Mas ele não pode fazer mais do que isso, não tem como – nem deveria – evitar que o consumo caia.

Os americanos estavam contando com uma riqueza que não tinham, agora vão ter que voltar ao mundo real.

Aqui, onde a gente já não tinha muita coisa mesmo, uma versão amantegada do Dr. Pangloss anda dizendo que a crise não vai ser ruim, que vamos até crescer um pouco este ano. O argumento do governo é que parte da queda do consumo aqui tem mais a ver com expectativa que com queda da renda.

E, por enquanto, tem mesmo. A renda das famílias não caiu no fim do ano passado, mas o consumo caiu 2% comparado ao do terceiro trimestre (dessazonalizado).

Mas não adianta ser otimista demais. As exportações já despencaram, o crédito ficou mais difícil e o desemprego já está aí. Quer dizer: estamos importando a crise.

Vi hoje um gráfico assustador com a série histórica do PIB mundial e a do Brasil. Historicamente, o PIB brasileiro acompanha os movimentos de alta e baixa do resto do mundo – com uma defasagenzinha de uns três meses. Como a abertura econômica cresceu nos últimos anos, devemos acompanhar o ritmo externo ainda mais de perto.

O que vem por aí não é o melhor dos mundos possíveis…

Contemplação da crise - México - Museu de Antropologia

Contemplação da crise - México - Museu de Antropologia

Bento Consulting

Março 11, 2009

Errar é humano. Errar em previsões sobre a economia é humano e bastante normal. Nas consultorias que fazem essas previsões, há bons técnicos e bons cascateiros – como em qualquer lugar. Mas separar os técnicos dos cascateiros é especialmente difícil nessa área – até que os cascateiros se entreguem sozinhos. E às vezes eles fazem isso.

Não dá para dizer quem é bom só olhando para o histórico. Um cascateiro com bons programas de computador, amigos bem informados e um pouco de sorte  pode ter uma performance bastante razoável por um certo tempo. E, em épocas como agora, em que tudo muda muito rápido, esse pouco de sorte acaba fazendo uma boa diferença.

Mas há duas maneiras de diferenciar o cascateiro. A primeira é ver como ele reage quando erra. Todas as consultorias erraram a previsão do PIB para o quarto trimestre no Brasil. As mais sinceras assumiram o erro. Afinal, todo mundo erra. Mas as mais povoadas por cascateiros não assumem.

O bom cascateiro não quer se passar por analista, quer se passar por profeta. E profeta não erra. Se o número divulgado é diferente do seu, o erro é de quem divulgou. 

E aí começa a ladainha de consultores no ouvido de repórteres desprevenidos. A culpa do erro é do ajuste sazonal, é de um outlier que não deveria estar lá etc etc. As críticas são feitas em econometrês, um dialeto do economês que nem os consultores sérios dominam muito bem. 

Os repórteres não entendem, os leitores também não, mas o consultor limpa sua cara, mantém seus clientes e empurra a culpa para os pesquisadores que divulgaram os dados. 

Bom, esse desejo de infalibilidade – coisa de deixar papas com inveja – é o primeiro indício de cascata. O segundo está no que eles dizem.

Na Folha de São Paulo de hoje há um bom exemplo:

Reclamando dos números do PIB, que vieram abaixo de suas previsões, dois consultores se alternam dizendo que “assim, qualquer movimento positivo, por mínimo que seja, empurrará o PIB do primeiro trimestre de 2009 para cima” e “com isso, reduzem-se as chances de uma recessão técnica”.

O problema é que eles estão reclamando do ajuste sazonal do PIB, da conta que tira os efeitos típicos de determinadas épocas do ano (como as vendas do Natal) da taxa de crescimento sobre o trimestre anterior. Eles dizem que, após o ajuste, o PIB veio baixo porque o ajuste considerou o quarto trimestre um mês atípico quando seria o começo de uma tendência de queda. Bom, um ponto não faz tendência. Se houver uma tendência, o ajuste sazonal do próximo trimestre vai incorporar essa informação e ajustar os valores do quarto trimestre para uma nova tendência – levando talvez a dois trimestres de queda. Se houver realmente queda em dois trimestres, o ajuste sazonal não diminui as chances de que ela apareça.

Desculpem pelo econometrês. O fato é que nenhum dos dois consultores tem idéia do que está falando. O ajuste sazonal muda a série para trás para incorporar a informação nova de cada trimestre sobre como os efeitos sazonais se comportam. Todo mundo que acompanha séries estatísticas com ajuste sazonal sabe disso, sabe que, a cada novo dado, se revisam os anteriores para incorporar os efeitos das novas informações.

O chato é que, para pegar esse tipo de cascata, a gente tem que aprender o beabá de econometrês.

A dupla de profetas, para tentar continuar no negócio, poderia estudar um pouco mais. Nem que seja para inventar cascatas melhorzinhas…

México e Brasil exportam cultura para a toda a América Latina – e se orgulham disso. Em uma mesa cheia de mexicanos – e falando um portunhol sofrível –  demorei a entender a pergunta de um de meus interlocutores:

- Vocês ainda vêem el Chavo Del Ocho?

- Quem?

- El Chavo Del Ocho!

Depois de um pouco de mímica e de referências ao Chapolim Colorado, entendi que o Chavo era o nosso Chaves, e respondi que sim, que o programa está no ar até hoje, que passa todas as tardes.

- E como vocês o chamam?

- Chaves.

Essa provavelmente foi a parte que mais gostaram. Pois, fora do Brasil, Chaves é aquele da Venezuela, não o Chavo da TV.

A contrapartida mexicana na história – que também ficaram felizes em me contar - é que boa parte deles cresceu vendo o emocionante Xou da Xuxa, que exportamos para o México. 

Eu, um pouco sem graça, admiti que o programa tinha sido muito popular aqui.

- No México, todas as meninas queriam ter roupas como as da Xuxa – contou uma de minhas interlocutoras (que, certamente, tinha sido uma das fãs mexicanas).

Prometi a mim mesmo nunca mais implicar com o colorido espalhafatoso típico de algumas partes do México. Afinal, nós vendíamos Xuxa para eles.

Parece pouco, mas era um programa estranho em que – todos os dias – uma mulher saía de um disco voador para ficar pulando ao lado de um mosquito gigante (mosquito da dengue gigante) e de uma suposta “praga” – para ficar gritando “Bom Dia!!!” e frases quase sem  sentido.  Talvez como obra surrealista faça algum sentido.

A certeza que eu tiro disso tudo, desse sucesso internacional de Chaves & Xuxa , é que não, eu nunca poderia ser diretor de programação de TV.

Escultura asteca sorridente - Museu de Antropologia - México

Escultura asteca sorridente - Museu de Antropologia - México

A Veja é a revista que sempre mete o pau no Governo e no PT, enquanto a CartaCapital é aquela que sempre os defende, muitas vezes ao arrepio dos fatos. Certo? O que dizer, então, do caso do italiano Cesare Battisti, tema de destaque nas edições desta semana de ambas as publicações?

Para a Veja, apesar dos muitos poréns, “Tarso [Genro, ministro da Justiça] pode estar certo” (Carta ao Leitor) e “pode ter tido boas razões” (matéria “Obrigado, Tarso Genro). A CartaCapital, por sua vez, vê “Afrontado o Estado italiano” (A Semana), tese defendida em mais detalhes na matéria “Cesare: veni, vidi, vici“.

A cobertura do caso pode ser uma prova da imparcialidade das duas revistas. Ou, o mais provável, de outra coisa qualquer.

Cão-peixe

Janeiro 16, 2009

Devo ser uma das poucas pessoas que assiste comerciais por gosto. E, às vezes, vendo uma coisa realmente original, me pergunto: “De onde é que eles tiraram isso?”

 

A última vez em que me fiz essa pergunta foi vendo uma propaganda de carro em que um surfista tem um cão-peixe – que o acompanha a todos os lugares.

 

De onde foi que tiraram isso?

 

Daqui:

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Para quem gosta de referências bibliográficas: Garfield e seus amigos, Editora L&PM, 2007.