Quinze anos sem Calvin

fevereiro 7, 2010

Aposentados há quase 15 anos, os quadrinhos de Calvin e Haroldo (no original, Calvin and Hobbes) fazem sucesso até hoje, com republicações em jornais e coletâneas que já alcançaram a marca de 45 milhões de exemplares vendidos. O Cleveland Plain Dealer publicou, há uma semana, uma rara entrevista com o recluso criador da tirinha, Bill Watterson, reproduzida a seguir, em tradução livre do blog:

Passados mais de 15 anos de distanciamento e reflexão, o que havia em Calvin e Haroldo, para conquistar não só a atenção dos leitores, mas também seus corações?

A única parte que compreendo é o que estava envolvido no processo de criação da tirinha. O que os leitores pensam é com eles. Depois que a tirinha é publicada, os leitores acrescentam suas experiências pessoais, e o trabalho acaba ganhando vida própria. Cada pessoa reage de maneira diferente a cada aspecto.

Tudo que eu tentava era criar de maneira honesta. Tentava tornar esse pequeno mundo algo divertido de se acompanhar, para que as pessoas quisessem gastar seu tempo na leitura. Era só o que me preocupava. Você mistura um monte de ingredientes e, uma vez entre muitas, a química funciona. Não consigo explicar por que a tirinha deu certo do jeito que deu, e não acredito que seja capaz de reproduzir isso. Várias coisas precisam dar certo ao mesmo tempo.

O que pensa a respeito da herança deixada pela tirinha?

Bem, não é nada que me tire o sono à noite. Serão sempre os próprios leitores que decidirão o que é significativo e relevante para eles. E consigo aceitar qualquer conclusão a que eles cheguem. Mais uma vez: acho que meu papel nisso tudo meio que acabou assim que a tinta secou.

A divertida dança de João e Tomás.

Os leitores criaram uma relação de amizade com os personagens. Por isso, de modo compreensível, eles lamentaram – e ainda lamentam – o fim da tirinha. O que gostaria de dizer a eles?

Não é algo tão difícil de se entender quanto as pessoas gostam de fazer crer: depois de dez anos, eu já havia dito quase tudo que tinha a dizer.

É sempre melhor sair cedo da festa. Se eu tivesse pegado carona na popularidade da tirinha, se tivesse me repetido por dez, vinte anos, as pessoas que hoje “lamentam” o fim de Calvin e Haroldo estariam desejando minha morte e xingando os jornais por publicarem tirinhas chatas e antigas como a minha, em vez de dar espaço a artistas mais jovens e empolgantes. E eu concordaria com elas.

Acho que parte da explicação para Calvin e Haroldo ainda ter um público grande atualmente é que preferi não insistir até não haver mais nada.

Nunca me arrependi de ter parado quando parei.

Como muita gente se identificava com seu trabalho, os fãs se sentem ligados a você, como se o conhecessem. Querem mais trabalhos seus, mais histórias do Calvin, uma nova tirinha, qualquer coisa. É realmente uma relação semelhante à das estrelas do rock com seus fãs. Considerando sua aversão a ser o centro das atenções, como lida com isso hoje? E como encara o fato de que isso o acompanhará por toda a vida?

Ah, a vida de cartunista de jornal… como sinto falta das fãs, das drogas e da bagunça nos quartos de hotel!

A verdade é que, desde meus dias de “astro do rock”, o interesse do público já diminuiu muito. Na escala de tempo da cultura pop, a década de 90 foi há milhões de anos. Acontecem casos esporádicos de bizarrice, mas na maior parte do tempo simplesmente toco minha vida pacata e me esforço ao máximo para ignorar o resto. Tenho orgulho da tirinha, sou enormemente agradecido pelo sucesso e fico sinceramente lisonjeado que as pessoas ainda a leiam. Mas, quando escrevia Calvin e Haroldo, estava na casa dos 30, muito longe de onde estou hoje.

Um trabalho de arte pode se perpetuar, mas eu continuo avançando pelos anos como qualquer outra pessoa. Acho que os fãs de verdade entendem isso e aceitam me dar espaço para tocar a vida.

Quanto tempo depois de os correios [dos EUA] lançarem o selo do Calvin você pretende mandar uma carta com ele?

Imediatamente. Vou subir na minha carruagem e tratar de enviar um cheque para pagar a assinatura do jornal.

Como espera que as pessoas se lembrem desse menino de seis anos e de seu tigre?

Voto em “Calvin e Haroldo, a oitava maravilha do mundo”.

Grosseria contábil

janeiro 31, 2010

Hoje a Petrobrás começou o dia completamente disproporcional – pelo menos na capa do Estado de S. Paulo. Segundo a chamada de capa, a empresa “já movimenta 10% do PIB”.

Quem está acostumado a ler os números da economia estranha. Afinal, em 2007 (último ano com dados desagregados disponíveis), o valor adicionado por todo o setor de extração de petróleo e gás representava 1,7% do total da economia. O refino representava 0,6%. A produção de químicos, resinas e defensivos agrícolas, chegava  0,8%. Somando tudo, temos 3,0% do valor adicionado total. E esses números são para toda a indústria nessas atividades, não só para a Petrobrás.

A chamada de capa tenta se safar com uma conta que ninguém faz, diz que “o valor adicionado pela estatal e seus investimentos já representam 10% do PIB”.

Não se pode somar valor adicionado e investimento. Isso cria um problema que os contadores nacionais chamam, muito candidamente, de duplacontagem. Mas, ainda que se pudesse, para chegar aos tais 10% do PIB, a Petrobrás, sozinha, teria que ser responsável por metade do investimento do país. No terceiro trimestre de 2009, a taxa de investimento do país (investimento sobre PIB) foi de 17,7%.  Um ano antes – antes da crise internacional – ela era de 20,1%.

Mas o dado mais bizarro na matéria do Estadão está no corpo do texto, no caderno de economia: “As megarreservas do pré-sal e investimentos que superam US$ 170 bilhões até 2014 devem ampliar a participação da Petrobrás no PIB para 20%, estimam analistas.”

São cinco erros em uma frase: 1) os investimentos previstos para 5 anos (2010 – 2014) não podem ser comparados ao PIB de um único ano;  2) quando fala de reservas, a repórter está falando em patrimônio, não em geração de renda. É como querer comparar o estoque de carros já produzidos com a produção da indústria automobilística num ano, PIB é geração de renda, não patrimônio acumulado. Para comparar com as reservas de petróleo, ela teria que usar o patrimônio total do país. 3) “estimam analistas” é um recurso tosco usado para tirar o corpo fora sem responsabilizar ninguém pela informação: se alguém teve a cara de pau de dizer isso, diga quem foi, ou então não reproduza a besteira do sujeito. 4) Toda a indústria do país (TODA) respondeu, em 2008, por 27,3% do valor adicionado da economia (o Brasil é, hoje, uma economia movida a serviços – 66,7% do valor adicionado em 2008). A Petrobrás sozinha não vai chegar a 20% do PIB nem que descubram uma nova Arábia Saudita embaixo de sua sede, na Av. Chile. 5) Por fim, o erro de conta: mesmo que se pudesse dividir patrimônio por renda e comparar cinco anos de investimento com o PIB de um ano, os US$ 170 bi somados ao valor adicionado pela Petrobrás continuariam longe de 20% do PIB (que hoje é de mais de R$ 3 trilhões ao ano). Em outro trecho da matéria, a repórter cita uma capitalização de “dezenas de bilhões de reais” do governo, que quer incluir na conta. Não adianta: para chegar a 20% do PIB teriam que ser centenas de bilhões.

O turismo vai decolar

janeiro 26, 2010

Viajar é sempre uma oportunidade de se dedicar à reflexão acerca de imorredouras questões existenciais. Como a seguinte: o que fazem os órgãos responsáveis pela promoção do turismo no Brasil?

O sujeito chega à Colômbia, um país ainda sob a sombra das Farc e do paramilitarismo, da pobreza que assola grande parte da população e da lei do chumbo vigente em diversas regiões, e encontra um destino que recebeu 1.324.988 turistas estrangeiros em 2009.

Ponha-se o número em perspectiva, ante os cerca de 5 milhões em que o Brasil – o grande líder da América do Sul – patina há alguns anos, e o absurdo da situação começa a se revelar. Some-se Rio de Janeiro, Nordeste, Pantanal, Amazônia, Cataratas do Iguaçu, turismo de negócios, e a imagem passa a ganhar contornos surrealistas.

Comparar o nível do serviço de informação turística à disposição do visitante nos aeroportos de Bogotá e do Rio, por exemplo, é receita fácil para indignação. E se entreter, em Cartagena, nos estandes da iniciativa Colombia es Pasión? Puro masoquismo.

Enquanto a Colômbia aposta em planejamento e profissionalismo, o Brasil se escora nas firulas contábeis de sempre, contentando-se com migalhas do turismo global.

Mas não se preocupem. Já temos um projeto infalível para alcançar a marca de 20 milhões de turistas estrangeiros em 2020. Chama-se Aquarela 2020.

Se mantivermos nossa tradicional competência no setor, porém, periga até a Colômbia pintar esse número antes.

Turismo no Brasil: em forma para decolar.

INDEC pra quê?

janeiro 16, 2010

Cansada de humilhar os técnicos do instituto de estatística argentino de formas tradicionais, a presidente Cristina Kirshner chutou o pau da barraca esta quinta-feira. Além de forçar os técnicos da manipularem os dados de inflação e crescimento, ela ainda tripudiou, anunciando os números do PIB antes da divulgação oficial do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (INDEC).

Segundo a presidente, a economia argentina cresceu 0,9% em 2009. Consultores independentes estimam que o PIB de lá tenha, na verdade, caído 4,5%.

Cristina Kirshner ainda não percebeu que ninguém mais acredita nos números do INDEC? Não se deu conta de que – se é para pôr qualquer número na taxa de crescimento – podia economizar uns pesos e fechar logo o instituto? Para o mesmo resultado, teria um gasto menor.

Sarcófago tão antigo quanto as idéias administrativas - e a estética - de Cristina Kirshner.

Chaves: "Se os preços se mexerem, atirem!"

O coronel Hugo Chaves mandou o exécito venezuelano fechar 70 lojas e supermecados por aumentarem os preços ontem. Chaves, que desvalorizou a moeda do país esta semana, esperava que os comerciantes absorvessem o prejuízo com o aumento de custo dos importados.

Proibindo aumentos, tudo que vai conseguir é uma crise de abastecimento – para combinar com a crise de energia que já tem.

Para os economistas, é sempre curioso ver o que acontece quando se contraria o beabá da teoria econômica. Mas podia ter sido uma experiência menos tosca, menos primária.

Que venha então a escassez (e o mercado clandestino e o ágio e as lojas fechadas e a queda da atividade econômica) .

Político francês - por Honoré Daumier - sec. XIX, Museu D'Orsay - Paris, 2008.

Todo economista sabe que o aumento do protecionismo foi uma das coisas que agravou a Grande Depressão, nos anos 30. O protecionismo não é uma boa idéia, nem na versão assumida nem em versões disfarçadas – como a apresentada agora pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy.

Segundo a edição de hoje do Estado de S. Paulo, Sarko “proporá a criação, na Organização Internacional do Trabalho (OIT), de selos de garantia social, como o ‘direito à saúde’, o ‘direito ao meio ambiente sustentável’, que seriam considerados numa balança que incluiria os ‘direitos de comércio’. O objetivo da proposta é combater o que os europeus chamam de ‘dumping social’, ou seja, a produção industrial com exploração de mão de obra excessivamente barata ou infantil.”

Na prática, ele quer acabar com empregos em países pobres para diminuir a concorrência com as empresas francesas. A “mão de obra excessivamente barata” geralmente é aquela que estava na extrema pobreza e conseguiu um emprego. Quem escolhe voluntariamente um emprego que paga mal, faz isso porque sua alternativa é ainda pior, é voltar à extrema pobreza. E é para lá que Sarkozy quer devolver essas pessoas.

Além de prejudicar os produtores no resto do mundo, as barreiras comerciais à la Sarko ainda aumentariam os preços pagos pelos consumidores franceses (justamente por diminuírem a concorrência).

As barreiras que Sarkozy quer criar parecem coisa de Cristina Kirshner. São uma barberagem econômica comparável à de propor que se pare a desvalorização do dólar no grito, como também defende o presidente francês.  ”Se fabricamos em euros e vendemos em dólar, com o dólar que cai e o euro que sobe, como vamos compensar o déficit de competitividade?”, disse  ele, quinta-feira, em um seminário em Paris. Talvez Sarkozy devesse pensar em reformas econômicas, em aumentar de fato a produtividade na França…

Como os EUA têm um déficit externo gigantesco – consomem muito mais do que produzem – é natural que sua moeda perca valor. Com as taxas de juros baixas usadas para combater a crise econômica, isso é ainda mais natural. E não há discurso populista francês que mude isso.

Sarko está escrevendo seu nome em um seleto panteón de políticos caricatos da república. No século XIX, o chargista francês  Honoré Daumier já se divertia fazendo os bustos e caricaturas desses senhores.

O duro é pensar no estrago que um populista desses pode fazer na economia e, principalmente, no comércio internacional.

Mais políticos do século XIX - Daumier, Museu D'Orsay, 2008.

Paranóia americana

dezembro 31, 2009

A polícia de Nova York fechou ontem o Times Square – um dos pedaços mais movimentados do centro da cidade. A justificativa foi uma van branca, sem placa, estacionada na rua. Os paranóicos de plantão acharam que ela podia ter uma bomba.

Quando estive em Nova York, fui expulso de um dos pontos turísticos (eu, todos os turistas e até os funcionários) por um bando de policiais armados com fuzis. Os policiais chegaram à Ellis Island – que fica ao lado da Estátua da Liberdade – e informaram que a ilha ia ser evacuada. Não disseram por que ou pra quê.

Não sei se o plano era só criar paranóia e medo mas, provavelmente, isso foi tudo que conseguiram. Criaram um pouco de irritação também. A senhora atrás de mim, na fila de volta para o barco, estava furiosa (para dizer o mínimo).

A van branca no Times Square era de um comerciante local: em vez de bombas, tinha roupas. Em Ellis Island, até hoje não sei o que houve. No máximo uma simulação de rotina para estragar o passeio de alguns turistas.

Mandar a polícia evacuar o Museu da Imigração – a grande atração da ilha – é mesmo uma coisa meio caricata.

E, pelo jeito, evacuar pontos turísticos já deve ser uma coisa comum. Até onde eu vi, não saiu  nada sobre Ellis Island nos jornais do dia seguinte.

Posto de recrutamento das forças armadas americanas no Times Square: "To bomb and to fear being bombed" - novembro de 2009.

Algo de podre no cofre

dezembro 27, 2009

Fim de ano é época de fechar balanços. Mas uma das grandes dúvidas do ano – quanto valem os papéis podres na lista de ativos dos grandes bancos gringos – continua sem resposta.

Goldman Sachs e similares estão há alguns meses alardeando lucros e pagando gordos dividendos a seus diretores. Mas a única garantia de que eles não vão quebrar amanhã é a do Federal Reserve, o banco central americano (que promete uns bilhõezinhos a todos os que ficarem com a corda no pescoço e forem grandes demais para quebrar).

Protegidos pela garantia federal, os bancos fazem o mesmo tipo de aposta que levou muitos deles ao abismo (e ao socorro do FED) em 2008.

A estátua de George Washington, em Wall Street, protesta contra os bônus pagos a executivos de bancos com ativos podres - novembro de 2009.

A estátua de Shakespeare no Central Park concorda com o protesto.

Chamunda, o horrendo destruidor do mal (Madhya Pradesh, século X ou XI), Metropolitan Museum, Nova York.

Chamunda, o horrendo destruidor do mal (acima), foi testemunha das aberrações econômicas da Índia – seu país de origem – por vários séculos. Aqui no Brasil, nossa lista de aberrações o deixaria ainda mais esquelético e horrorizado. Ontem, Lula, Mantega e uma tropa de sindicalistas baixaram, por medida provisória, as regras de aumento do salário mínimo e das aposentadorias até 2011. A novidade é que o aumento do salário mínimo vai ser igual à variação da inflação (INPC) mais a variação do PIB – se ela for positiva. Já os aposentados ficarão com metade da variação (positiva) do PIB.

Segundo o Estadão, o PIB usado para corrigir os salários de 2011 será o de 2009. Mas o curioso é que o IBGE só divulgará o PIB definitivo de 2009 em novembro de 2011. Como os salários mínimos são reajustados no primeiro semestre, imagino que usarão o PIB de 2009 calculado por soma de trimestres – sempre sujeito a revisões.

No último dia 10, o IBGE revisou em 0,9 ponto percentual o PIB do segundo trimestre de 2009 – revisou para baixo. Imagine como vai ser isso em épocas de salário indexado ao PIB…

PIB não é indexador, nem de salário nem de nada, em lugar nenhum do mundo. E este é mas um caso de falsa jabuticaba, uma daquelas políticas que, se só tem no Brasil, é porque deve ter algum problema.

A primeira maldade dos autores da MP é que o PIB de 2009 deve crescer pouco – se é que não vai ser negativo. Mas a idéia usar o PIB como indexador pode render frutos assustadores, coisa de deixar Chamunda de cabelo em pé.

Se a moda pegar e se o Brasil tiver – no futuro – o nível de crescimento que bancos e consultorias têm projetado, muitas prefeituras vão ficar com a corda no pescoço, para não falar na Previdência.

Ah e,  a cada revisão para baixo no PIB, vai ser uma gritaria dos diabos.

Ainda há esperança

dezembro 23, 2009

Adeus, Sean, seja feliz. Ou não. Pouco importa.

Econometria, por favor

dezembro 15, 2009

Deve haver algo errado comigo, ou então Abraços partidos, último filme de Pedro Almodóvar, ficou longo demais. O fato é que, no meio do filme, eu já sentia saudades do livro de econometria que deixei de lado para ir ao cinema.

O filme não é uma perda total: ele mostra Penélope Cruz com jeitinho de Audrey Hepburn (foto). Mas, fora isso, é só um longo melodrama.

A econometria, pelo menos, é seca: não é maniqueísta, não  envolve espancamentos e não pretende assustar ninguém (embora também assuste, às vezes).

Penélope Cruz - quase salvando um roteiro que a Audrey original teria recusado

Dissolução

novembro 22, 2009

Uma das coisas estranhas em viajar é ver o Brasil de fora. O apagão visto de fora foi bem assustador. Fiquei sabendo quase na hora em que começou – por uma amiga que tinha falado com a família. Acessei a internet. O site do Globo estava fora do ar. As pessoas com quem eu queria falar no Brasil tinham telefones sem fio ligados na tomada ou celulares com a bateria perto do fim etc etc. Na hora, pensei em quantos estavam presos em elevadores ou no metrô lotado de fim de tarde…

Agora, de volta ao Rio de Janeiro, ouvindo histórias de amigos assaltados na Lapa (outro dia, não no do apagão), comparando o transporte público daqui com o de lá, a manutenção das ruas daqui com a de lá etc etc, tenho um pouco a sensação de que a cidade está se desmanchando, se dissolvendo.

Eu sei, pode ser só impressão de recém chegado: mais alguns dias e me acostumo de novo ao caos carioca. Mas, por hora,  a foto aí embaixo continua me dando um certo arrepio.

Rio de Janeiro visto de fora. A foto de Copacabana foi capa do site do New York Times.

Destroços da crise?

novembro 20, 2009

A fila do ponto de taxi, a fila do desembarque no aeroporto e as filas dos restaurantes indicam que a crise nos EUA não é tão assustadora quanto o noticiário dá  a entender.

Sim, o taxista diz que seu movimento caiu mais de 30%, o desemprego chegou a dois dígitos e os consumidores não têm o mesmo ímpeto de dois anos atrás. Mas a economia em crise lá é bem mais próspera que a economia em crescimento aqui.

Eles não estão crescendo, mas a economia empacou em um nível já bem alto.

Eu sei, há sempre o risco de que a coisa desande de uma hora para a outra e eles encarem uma recessão de verdade – com a economia encolhendo para valer – como nos tempos da grande depressão.

Mas, por hora, a choradeira de lá não deve impressionar quem está acostumado com o mercado de trabalho daqui.

 

Imigrante egípcia leva bode para servir em restaurante temático - Metropolitan Museum, Nova Iorque - novembro de 2009

 

 

Dia do Servidor Público

outubro 26, 2009

Um dos grandes temas do direito constitucional americano é a separação entre Estado e igreja. Ao contrário do que se possa imaginar, porém, quando casos relacionados ao assunto chegam à Suprema Corte, nem sempre a discussão se concentra em questões subjetivas acerca da natureza do ser humano. O ponto-chave é o imposto pago pelo cidadão. Por exemplo, por que o Estado deve gastar seus escassos recursos, oriundos da contribuição de todos, com medidas que visam a promover uma causa específica?

O dinheiro pode ser uma praga, mas ajuda a entender muita coisa.

Hoje, 26 de outubro, muitos servidores públicos estão “comemorando”, adiantadamente, o Dia do Servidor Público (28). Merecido? Justo? Legal?

A pergunta certa é outra: por que todos estão pagando?

Há tempos não via as notícias de esporte na TV. Hoje, não sei por quê, assisti. Passaram um bom tempo mostrando gols e passes de jogadores brasileiros em times europeus. São nosso migrantes. Mas não são os únicos. De minha turma de faculdade (cerca de 30, formados em 1999) sei de sete que hoje moram fora do país. Há mais uma que foi e voltou. Também tenho parentes migrantes.

São todos muito bons no que fazem e todos queriam bastante sair daqui. As agruras cariocas de todos os dias explicam um pouco esse desejo de migrar. A falta de trabalho no Rio explica outro tanto.

Não sei se o mundo lá fora é mais civilizado, se as pessoas são menos assaltadas ou se alugar um apartamento envolve menos burocracia. Mas sei que estar longe da família e dos amigos é um custo respeitável.

Para morar fora valer a pena, o benefício (o ganho em qualidade de vida) tem que ser maior que esse custo. E se for mesmo – e essa proporção de migrantes parece indicar que é – então as coisas aqui estão realmente pouco civilizadas…

Rio Sena, visto do alto da torre - 2008.

Rio Sena, visto do alto da torre - 2008.

O laboratório de Lupi

outubro 10, 2009

A Lei do Estágio é uma daquelas experiências de pode gerar argumentos para várias discussões. A primeira delas é sobre a lógica do mercado. O mercado funciona? O mercado de trabalho funciona?

Os economistas não têm muita dúvida, mas o atual ministro do trabalho, Carlos Lupi, tinha - e fez o teste. Sua lei aumentou os encargos trabalhistas e criou vários direitos, como o de férias, para os estagiários.

O resultado foi que, de 1,1 milhão de vagas de estágio que havia em setembro de 2008, restaram 900 mil em setembro de 2009. Os números, da Associação Brasileira de Estágios, estão no Estadão de hoje

Quando o custo de contratar aumenta, as empresas contratam menos. A lei, no fim das contas, foi um desserviços aos estagiários, que não estão atrás de direitos trabalhistas, mas de um lugar para aprender um trabalho, conhecer de perto as empresas em que podem trabalhar como funcionários no futuro e perceber que tipo de aptidão vão ter que desenvolver para trabalhar naquele setor.

A segunda discussão que esses números levantam é a da nomeação de aliados sem nenhum preparo técnico para ocupar ministérios importantes, como é o caso do ex-presidente do PDT Carlos Lupi. O benefício político para o governo de ter partidos aliados no parlamento compensa o prejuizo que o ministro causa em termos de diminuir o bem estar da população – destruíndo vagas de estágio, por exemplo?

Outra discussão é sobre o Congresso. Afinal, a Lei do Estágio foi aprovada pelo Congresso. E, na época, seus efeitos eram perfeitamente previsíveis. Mas se o Congresso é formado por aliados que só querem ocupar ministérios e nomear diretores de estatais, há chance de que até projetos delirantes do executivo – como esse – consigam maioria.

A a quarta, e última, discussão é sobre a idéia de independência entre os poderes da república – como foi pensada originalmente. Ela ainda tem alguma coisa a ver com o que acontede em Brasília atualmente?

Lupi: experiências de laboratório com o estágio dos outros

Lupi: experiências de laboratório com o estágio dos outros

Estamos sempre tentando associar coisas, perceber que causa leva a que efeito ou como o vento de hoje pode estar associado à chuva de amanhã.

Procuramos correlações, coisa de estatístico. A diferença é que os estatísticos admitem isso e tentam refinar seus métodos.

E, refinados os métodos, eles podem ajudar a não fazer associações erradas, a não procurar explicações mirabolantes para o dono do partamento não renovar o contrato de aluguel, o carro dar defeito, o computador ter vírus e eu ser alvo de rejeitos de passarinho (o que me lembrou A igualdade é branca), tudo na mesma semana.

Placa associada à presença de pessoas sem sorte

Placa associada à presença de pessoas sem sorte

Segue o seco

setembro 26, 2009

Muita gente não entende, até hoje, como milhões de pessoas seguiram líderes como Hitler, Stalin e Mao. Ou mesmo como algumas dezenas seguiram figuras como Charles Manson e David Koresh. Curiosamente, porém, ninguém se espanta que 1 milhão de usuários de internet sigam o apresentador Luciano Huck no Twitter. Sim, aquele Luciano Huck que desfiou sua revolta, em artigo na Folha de S. Paulo, depois de ter o Rolex roubado, mas que nunca exibiu semelhante indignação em relação à miséria, à desigualdade, aos privilégios, à corrupção ou à situação da saúde pública. Aquele Luciano Huck que se acha o suprassumo da responsabilidade social porque (supostamente) paga seus impostos em dia. Aquele Luciano Huck que, semanalmente, submete cidadãos de baixa renda a pressões intensas e testes de laboratório, em troca de um presente financiado por patrocinadores, como se fosse um gesto magnânimo de caridade.

O fato é que, pela primeira vez, um brasileiro alcança 1 milhão de seguidores no Twitter.

Além disso, e por incrível que pareça, a modelo Letícia Birkheuer passou parte deste sábado tomando banho de sol com amigos na praia de Ipanema.

De cartas e bancos

setembro 25, 2009

Carteiros e bancários estão simultaneamente em greve esta semana. As reivindicações, justas ou não, são bem parecidas: reajuste, demandas relativas à participação nos lucros, melhoria das condições de trabalho e contratações. A imprensa faz a cobertura de sempre, acompanhando as negociações, monitorando a adesão, registrando os transtornos ao resto da população e tentando esclarecer as dúvidas práticas decorrentes da paralisação.

De um aspecto, porém, não se fala, nem nos jornais, nem nas rodinhas de conversa: em larga medida, a greve, para essas duas categorias em particular, é um tiro no pé.

Além do governo e do patronato, carteiros e bancários enfrentam um inimigo cruel, conhecido vulgarmente como alternativa. E talvez não exista melhor exemplo, por unir as duas frentes, que o boleto bancário. Comumente recebido pelo correio, pode, em muitos casos, ser impresso nos sites das empresas e bancos. Um dia figura popular nas filas das agências bancárias, tornou-se, aos poucos, mais afeito à praticidade das caixas eletrônicas e do internet banking.

A greve, nesse contexto, só incentiva os resistentes ao meio eletrônico a abandonar de vez os caminhos tradicionais. E, quanto mais gente migrar para a internet e o autoatendimento, menos força terão as categorias profissionais e mais absurdas serão reivindicações como a contratação de mais empregados.

Talvez seja uma realidade cruel. Mas não menos real por isso.

Nicolas Sarkozy – marido de Carla Bruni e também presidente da França – está tentando se transformar em um populista latino americano. Seguindo o padrão Lula, ele não sai da TV. E fala sobre tudo, de crise econômica a recomendações estatísticas.

É nessa parte que começa a se parecer com o casal Kirshner, que governa a Argentina. Sem poder intervir no INSEE, o IBGE francês, como os Kirshners fizeram no INDEC, Sarko encomendou a um grupo de marqueteiros uma crítica ao PIB como medida de referência para a economia.

O grupo de marqueteiros internacionais, comandado por Joseph Stiglitz, produziu o tal estudo e, desde então, não para de dar entrevistas e escrever na imprensa.

Uma das melhores abobrinhas nesses textos é a referência a uma medida de Felicidade Nacional Bruta, concebida no Butão (no Himalaia) para servir como indicador econômico. As matérias e artigos sobre o estudo da “Comissão Stigliz” combatem um inimigo inexistente, dizem que o PIB não pode ser usado como indicador de felicidade ou bem estar social. É verdade, não pode mesmo. Mas ninguém disse que podia. O PIB é um indicador de atividade econômica.

A “Comissão Stuglitz” então recomenda o uso de outros indicadores que já fazem parte do Sistema de Contas Nacionais – como a renda disponível das das famílias – como aproximação melhor para medidas de bem estar. Recomenda também o uso do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – que usa dados como expectativa de vida como proxy para a qualidade de vida em regiões específicas.

Até aí nada de novo. O assustador em algumas reportagens é saber que a idéia de encomendar o estudo foi do redator de discursos de Sarkozy que, aparentemente, queria números mais bonitos para pôr em seus textos.

Não é uma boa hora para mudar formas de cálculo ou fazer malabarismos com números. A Argentina vai demorar décadas para se recuperar da perda de credibilidade que o INDEC sofreu com a intervenção do governo.

E, publicidade à parte, as Contas Nacionais têm que ser feitas de acordo com manuais da ONU e – no caso da França – com regulamentações da União Européia. Sarkozy pode não gostar, pode querer obrigar o instituto de estatística a inventar outros indicadores, mas não vai conseguir fugir dos efeitos da crise (e de algumas políticas populistas da França). Eles estarão visíveis por muito tempo no PIB padrão do velho e bom Sistema de Contas Nacionais.

Se fosse mais esperto e tivesse mais amor à propria credibilidade, Sarkozy gastaria mais tempo com Carla Bruni e menos dando pitaco no que deve fazer o instituto de estatística da França.

Carla Bruni, enfastiada, espera fim do discurso populista sobre as estatísticas na França

Carla Bruni, enfastiada, espera o fim do discurso de seu marido sobre as estatísticas na França