Menos a Daniele

janeiro 22, 2012

Uma mulher que é estuprada, perde a filha de pouco mais de um ano e passa por uma sessão de tortura de quatro horas sob custódia do Estado é notícia? Para a imprensa brasileira, ao que parece, todo caso desse tipo merece destaque.

Menos o da Daniela.

Em 2006, Daniele Toledo do Prado foi estuprada por um estudante de medicina no Hospital Universitário de Taubaté, onde tinha internado a filha de um ano e três meses. O que já seria uma tragédia pessoal insuportável se tornou um enredo de terror inconcebível. A filha acabaria morrendo, e ela, a mãe estuprada, acusada por médicos de dar cocaína para a menina. A polícia comprou a história antes mesmo de ouvir depoimentos ou realizar exames periciais. E, com a polícia, veio a imprensa. O que se seguiu, mesmo nestes tempos de fugacidade, muita gente lembra até hoje.

Nasceu então o “monstro da mamadeira”. [Leia detalhes do caso aqui.]

Pois o monstro da mamadeira, exposta diariamente pelo “interesse jornalístico” da versão oficial, era na verdade vítima. Vítima de estupro, vítima de uma funesta arapuca armada por médicos, vítima da polícia, vítima do prejulgamento da sociedade, vítima da imprensa.

E, por tudo isso, a Justiça de São Paulo decidiu recentemente que o monstro da mamadeira merece receber do Estado uma indenização de R$ 15 mil. São cinco meses da mensalidade do curso de medicina da Universidade de Taubaté, dois meses de salário de um delegado da Polícia Civil de São Paulo, dois segundos de comercial em rede nacional de TV.

A Folha de S. Paulo publicou uma matéria discreta sobre a decisão. O resto da grande imprensa nem se deu ao trabalho. O monstro da mamadeira, ou melhor, Daniele Toledo do Prado, ao virar vítima de tantas monstruosidades, perdeu o interesse jornalístico.

E nós todos perdemos a vergonha.

Menos a Daniele, que terá de viver com ela até a morte, aqui mesmo no Brasil.

É bom que a Europa entre em recessão e melhor ainda que Guido Mantega continue no Ministério da Fazenda depois da reforma pré-eleitoral que Dilma fará em sua equipe.

Uma semana atrás, se lesse a frase acima, eu ia achar que tinha sido escrita por um lunático. Mas, excesso de otimismo à parte, concordo com ela. Estou lendo o novo livro de Daniel Kahneman, o psicólogo que ganhou o Nobel de economia. O livro fala mais de estatística do que de qualquer outra coisa e acaba com a maneira como os economistas entendem a ideia de utilidade.

Kahneman e seu co-autor, Amos Tversky, perceberam que as pessoas sofrem de aversão à perda. Resumindo muito, a perda de satisfação por perder R$ 1.000 é muito maior que a satisfação de ganhar R$ 1.000. A teoria vai bem mais longe do que isso. Mas, parando aí, já dá para explicar porque passei a comemorar a recessão européia.

Agora, no auge da crise – quando os governos estão com a corda no pescoço, sem saber se vão conseguir pagar as contas do mês que vem – é a hora ideal para empurrar medidas que, em qualquer outro momento, seriam consideradas politicamente inviáveis. A aversão à perda faria os eleitores derrubarem qualquer um que propusesse um ajuste igual a metade do necessário para botar as contas públicas de Grécia, Itália e cia. em ordem.

Eu sei, o ideal seria fazer o ajuste aos poucos, para evitar a recessão. Eu sei, ter famílias, empresas e governos cortando gastos ao mesmo tempo (em vários países) é uma receita para o desastre. Mas se os governos não fizerem os cortes agora, não vão conseguir aprova-los depois – quando a crise não estiver encostando a faca em seus pescoços.

A aversão à perda – de cada um dos eleitores – faz com que prefiram a bomba de longo prazo do que o corte de salário amanhã. É irracional, mas quem disse que nós somos racionais? (há uma longa lista de autores, mas eles estão errados).

Kahneman certamente não imaginou que suas ideias poderiam justificar um aperto de cinto de proporções latino americanas na Europa. Mas, por estranho que pareça, é o que resta fazer. É isso ou continuar com a incerteza à porta, com os problemas em banho-maria enquanto os políticos se esquivam de tomar medidas impopulares (e, infelizmente, necessárias).

Sobre o Mantega, bom, li esta semana um artigo excelente do Armando Castelar associando a entrada de dólares dos últimos anos a altas  de  preço – como a dos imóveis. O investimento externo tem contribuindo para que o Big Mac daqui seja mais caro que o dos outros lugares.

O Brasil, em tempos de crise bancária internacional e recessão européia, virou um bom lugar para guardar dinheiro.

Mas, quando o dinheiro entra muito rápido, ele cria bolhas, aquece a demanda e produz um certo suspense sobre o que vai acontecer quando parar de entrar.

Os economistas mais tradicionais sabem que há pouca coisa a fazer sobre isso. Quando o dinheiro quer vir, ele vem. Não há câmbio controlado, controle de capitais ou qualquer outro controle que funcione.

Para moderar os efeitos da enxurrada de dólares, o Banco Central tem mandado parte dos dólares de volta para o exterior (como reservas internacionais) e a presidente Dilma tem mantido Mantega no ministério.

Não que qualquer medida proposta por ele afete realmente o câmbio ou o fluxo de recursos. Quem afeta é ele, diretamente. Mantega funciona como um espantalho em plantação de milho. O risco, a ameaça crível de ter medidas completamente sem nexo adotadas a qualquer momento na economia desestimula boa parte dos investidores mais sérios a olhar para o Brasil. E isso diminui a entrada de dólares.

A heterodoxia, enfim, é útil.

E o saldo da história é que estamos bem com nosso ministro e a Europa está bem com sua recessão iminente (apesar dos empregos que serão perdidos, da queda de padrão de vida e da troca amarga de olhares entre gregos e alemães). Tudo vai bem, no melhor dos mundos possíveis.

Como diria Voltaire: "Tá otimista é?"

Quando o dinheiro acaba, ainda dá para pedir emprestado. Mas quando o dinheiro acaba e os bancos começam a olhar torto e a negar empréstimo, só há duas alternativas: dar um jeito de ganhar mais ou cortar despesas.

Essa lógica de economia doméstica também funciona para um país. A Grécia, por exemplo (que não tem como crescer e “ganhar mais”), vai ter que cortar gastos públicos. Você emprestaria hoje suas economias para o endividado governo grego?

Mas se funciona para um país ou outro, isso não funciona para muitos, pelo menos não se todos forem cortar gastos ao mesmo tempo.

Essa ideia infeliz, proposta pela dupla Merkel-Sarkozy para a Europa, vai frear a economia européia, aumentar o desemprego, diminuir a arrecadação e, sim, piorar a crise.

Mas por que então eles estão propondo isso? Bom, do ponto de vista financeiro faz sentido: se a projeção de longo prazo para a dívida é ruim para todo mundo, é preciso cortar, recuperar a credibilidade com os emprestadores e – depois – voltar a crescer. Mas do ponto de vista econômico é assutador, porque vai cortar a demanda e, com ela, a produção européia. Vai piorar o que já não está bem.

Há alternativa?

Há. Se a Europa fosse um país, como o Brasil ou os EUA, o governo federal captaria dinheiro e repassaria para os estados mais endividados, permitindo que eles se ajustassem de um jeito mais suave, sem cortar gastos de forma muito abrupta (e sem todo mundo fazer isso ao mesmo tempo).

Os formuladores da União Européia provavelmente tinham isso em mente quando implantaram o Euro. A moeda única tira dois dos principais instumentos dos países para reagir a crises: a possibilidade de desvalorizar a moeda para exportar mais e a de baixar juros como acharem melhor. Sem poder desvalorizar, os países do  Euro precisariam de uma união fiscal, de um Tesouro comum, para adotar uma política econômica comum – compensando parte do efeito do câmbio e dos juros unificados sobre países diferentes.

Na prática, isso implicaria em transferências de recurso dos países mais desenvolvidos da Zona do Euro para os que estão tendo mais dificuldade em rolar suas dívidas. Quer dizer: a Alemanha teria que transferir dinheiro para Espanha, Portugal etc.

Os alemães estão resistindo à ideia. A proposta deles é algo do tipo: “Nós fizemos nossas reformas e estamos bem. Vocês que não arrumaram suas casas que se virem”. Alguém já usou a historinha das Formigas e Cigarras para descrever isso.

O curioso é que as formigas alemãs podem estar cavando o buraco que vai atolar sua economia. Sozinha, a garantia dada pela união fiscal acabaria com os aumentos de juros que têm ameaçado os estados do Euro. Sem ela, e com a recessão made in Germany que vem pela frente, a própria Alemanha se arrisca a um futuro pior do que teria com as transferências para o Tesouro comum (que iriam para os vizinhos endividados).

A impressão é de que, antes de se sentirem europeus, os alemães se sentem alemães. Dar dinheiro a um governo estrangeiro parece ser uma ideia intolerável para eles. Se os estrangeiros fossem ex-alemães do leste, como eram nos anos 90, tudo bem. Mas esse povo que fala outra língua não vai receber um tostão, mesmo que essa decisão leve a Alemanha à recessão por uns anos – e a Espanha a mais de 20% de desemprego.

Itália, Espanha e companhia têm que fazer ajustes estruturais – como aumentar a idade para se aposentar. Mas não agora. Cortar gastos no meio de uma recessão parece contra-intuitivo demais para dar certo.

Como diria aquele ex-ministro (e, só dessa vez, eu concordaria): é preciso fazer o bolo voltar a crescer – e só depois passar a faca nos gastos.

Merkel: "Transferências? De que tamanho?"

Manetas sob encomenda

novembro 15, 2011

Há dois tipos de marketing: o dos grandes cascateiros propagandistas (“Esse candidato é puro marketing”) e o dos menos cascateiros propagandistas. O segundo tipo envolve pesquisa de mercado e tem a ver com criar produtos ao gosto do público ou, como diria um marketeiro, produtos que atendam a necessidades específicas do público (quaisquer que elas sejam).

De tempos em tempos, alguma frase ou evento deixa claro que falta lançar um produto específico no mercado. Nesse caso, os marketeiros podem ir direto à fase do desenho de produtos – sem passar pelas pesquisas de opinião.

A frase de que me lembrei agora é de Harry Truman, presidente dos EUA entre 1945 e 1953. Cansado de ser lembrado dos custos e efeitos colaterais de cada  proposta que apresentava a seus economistas (“on the other hand”, ou , “por outro lado”, eles lembravam), ele clamava por um economista maneta.

Bom, as faculdades de economia não perderam tempo. Há décadas, produzem animais desse tipo. Eles são um estranho cruzamento de lobista com apresentador de programa de auditório – que parece ser capaz de formular argumentos com termos técnicos.

Eles não são inúteis. Podem trabalhar diretamente como lobistas ou em algum outro tipo de defesa de causas bem remuneradas.

Mas quando alguém do bando vai assessorar presidentes de verdade, a coisa fica estranha.

Nos EUA, o exemplo mais marcante é o de Gregory Mankiw, presidente do “Concil of economic Advisers” da Casa Branca entre 2003 e 2005. Sim, com seu discurso anti-impostos, ele é um dos culpados pelos efeitos da Era Bush.

No Brasil não é difícil pensar em lobistas, digo, economistas da indústria automobilística ditando leis na administração federal. Fazer o quê? Eles estão só atendendo à demanda por manetas.

PS.: Estou lendo How markets fail, de John Cassidy. O livro é uma tentativa – muito bem sucedida – de jogar a pá de cal na Escola de Chicago e em teorias como a das expectativas racionais e na hipótese dos mercados eficientes. Até agora, está melhor que The myth of the rational market, de Jutin Fox, que li mês passado. O markets fail é mais genérico, chuta toda a escola de Chicago. O rational market é mais detalhista – e mais isento – mas é apenas sobre teorias ligadas a finanças. Os dois são agradáveis e fáceis de ler.

PS2: Curiosidades à parte,os dois livros começam com a mesma cena: o depoimento de Alan Greenspan no Senado americano: aquele em que o mais longevo presidente do BC dos Estados Unidos diz que o mundo não era bem como ele achava que era.

Mercados falhos, por US$ 11, na Amazon.

Zona Franca

outubro 30, 2011

O superintendente interino da Zona Franca fez todos os agradecimentos protocolares e acrescentou: “Quero citar também a doutora Flávia Grosso, a responsável pelo crescimento que esta feira teve”.

Foi o único pedaço do discurso que a platéia aplaudiu. Estávamos na abertura da VI Feira Internacional da Amazônia, em Manaus, e o discurso seguinte foi de Omar Aziz (PSD), governador do Amazonas. Lá pelo meio do discurso, ele pegou a deixa: “Liguei para a doutora Flávia para prestar solidariedade. Disse a ela: nessas horas temos de nos aproximar de Deus e da família, pois só eles ficam do nosso lado!”

Eu tinha chegado a Manaus na véspera e fiquei curioso para saber quem era Flávia Grosso – e que tragédia tinha acontecido com ela.

O motorista do táxi, na volta para o hotel, desfez o mistério: no início do mês, depois de ter contas bancárias bloqueadas pela Justiça Federal e a casa revistada pela Polícia Federal, Flavia Grosso pediu demissão da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa).

Ela é investigada por enriquecimento ilícito e improbidade administrativa. A Justiça bloqueou – em sua conta e na de mais quatro pessoas – R$ 3,7 milhões.

“Mas não vai dar em nada”, previu o desiludido motorista do táxi.

Na noite seguinte, fui a um show de Boi de Parintins organizado pela Suframa para os participantes da feira.

“Eu queria prestar solidariedade à doutora Flávia. Ela nos ajudou muito!”, disse o vocalista do Boi Garantido (que saiu “direto de Parintins” para cantar e nos dar seu recado).  Antes do fim da noite, ele citaria o nome da ex-superintendente mais de 10 vezes – irritando alguns funcionários públicos de carreira sentados perto de mim.

O mais estranho é não haver uma rejeição geral, é tolerarem e defenderem os processados por enriquecimento ilícito que ocupam cargos altos na administração pública.

Eu sei: os paulistas elegem o Maluf, os cariocas, Garotinhos (mais de um), os maranhenses, bom, deixa para lá. Mesmo assim, é estranho ver ao vivo, sem o jornal ou a tela da TV no caminho.

PS. Atravessei a Ponte Rio Negro, ou Ponte do bilhão. É uma boa ponte, 3,5 quilômetros de comprimento, duas pistas para ir e duas para voltar, espaço para pedestres nas laterais… No final, dá para parar o carro e ir ver as águas limpas do Rio Negro. Do lado não-Manaus da ponte, há floresta, saímos da ponte já na floresta. No caminho para retornar, passei por uma olaria. Parece que há mais algumas daquele lado do rio. Não vi muita coisa além disso.

Data móvel (e muito)

outubro 25, 2011

Não bastasse ser uma ode ao privilégio, o Dia do Servidor Público deste ano promete ser uma celebração da incerteza, sob o pretexto de racionalização. O ponto facultativo, que de facultativo tem pouco, é celebrado oficialmente no dia 28 de outubro. Mas, como a data em si significa absolutamente nada, já se criou a tradição de movê-lo para o dia mais conveniente – mais conveniente para a “administração”, ou para o servidor, obviamente. E neste ano a administração pública federal resolveu se superar.

Tente acompanhar:

O Poder Judiciário remarcou o feriado para o dia 31 de outubro para criar um megaferiadão. (Sim, por lá, além do Dia de Finados, o dia 1º também é feriado.)

O Poder Legislativo manteve o feriado no dia 28 de outubro.

O Poder Executivo, a três dias do dia 28, resolveu remarcar o feriado para o dia 14 de novembro.

Nas universidades federais, que desfrutam de autonomia administrativa, as decisões variam, mas pelo menos uma, a UFPE, acrescentou uma quarta data, 1º de novembro, à mistura.

E o cidadão? O cidadão que se vire. E marque direitinho no calendário para não perder a viagem no dia 28. Ou no 31. Ou no 1º. Ou no 14.

O mundo de George

outubro 12, 2011

Duas pessoas podem ver – ao mesmo tempo – uma mesma notícia e entender coisas completamente diferentes? Vamos piorar: dá para olhar para a administração Bush, com suas invasões, bombas, tortura, defesa do criacionismo e política econômica temerária e depois vestir essa camisa?

A foto aí em cima foi tirada este sábado – em uma lojinha da área de embarque – no aeroporto de Washington. Ao lado do Saudades de Bush, havia a camisa No Obama 2012 e a Seals Team Six que, em português, quer dizer: nos orgulhamos da execução sumária do Osama. Era uma camisa preta – o que combinava com o texto.

Washington é uma cidade estranha. As ruas largas, praças gigantes e cafés excelentes ajudam a entender porque todo mundo lá é tão conservador. Mas que vistam essas camisas já é um pouco de exagero.

Os radicais de lá lembram os daqui (nos tempos em que tínhamos oposição): obstruem votações necessárias e só querem chegar ao poder (independentemente do estrago que causem para fazer isso ou de quanto tenham que gastar em propaganda).

A campanha republicana é uma peça de marketing para agradar conservadores do interior. Mas seu tom inflamado vai deixar sequelas. Vai render também algumas piadas. Uma das boas que vi por lá é esse quadro aí embaixo, com a sinuca democrata. Embaixo dele, com direito a reflexos da vitrine, o pôquer republicano.

Vitrine em Georgetown - Washington, sábado.

Republicanos: propaganda em massa & obstrução de projetos.

Em maio deste ano, parte da imprensa brasileira lançou uma ofensiva contra o livro Por uma vida melhor, da professora Heloísa Ramos, que, em resumo, faria uma apologia do erro em detrimento da norma culta da língua portuguesa. Um dos aspectos mais curiosos da cobertura, à época, foi a seletividade na busca por fontes para comentar o assunto. Imortais da ABL estavam liberados; membros da Associação Brasileira de Lingüística (Abralin) e da Associação de Lingüística Aplicada do Brasil (Alab) estavam vetados.

Era preciso, afinal, que os especialistas corroborassem a versão de “gafe” ou “postura ideológica” do MEC. E especialistas que divergissem deviam ser tratados segundo a regra einsteniana: se os fatos não se adequam à teoria, mude os fatos.

O Jornal Nacional do dia 13 de maio, por exemplo, estrilou com a chamada “MEC defende que aluno não precisa seguir algumas regras da gramática para falar de forma correta” e, para corroborar o absurdo das idéias de Heloísa Ramos, convocou uma professora da UnB, Rachel Dettoni, doutora em sociolinguística.

Aparentemente, o autor da matéria não conseguiu encontrar a tempo professores muito mais conhecidos do Instituto de Letras da UnB, como Marcos Bagno ou Stella Maris Bortoni-Ricardo, que, coincidência das coincidências, não viam nada de impróprio no livro de Heloísa Ramos (a exemplo de dezenas de colegas espalhados em universidades de todo o país).

Tudo isso para falar da minha surpresa ao ver, no Jornal Hoje deste sábado, uma matéria sobre dicionários. E ouvir, como fonte a dar a palavra de “especialista”, a professora de linguística da UnB… Stella Maris Bortoni-Ricardo.

Desta vez, sim, ela forneceu os fatos que a teoria exigia.

De cartas e bancos (redux)

setembro 27, 2011

Há exatos dois anos escrevi o seguinte textículo:

Carteiros e bancários estão simultaneamente em greve esta semana. As reivindicações, justas ou não, são bem parecidas: reajuste, demandas relativas à participação nos lucros, melhoria das condições de trabalho e contratações. A imprensa faz a cobertura de sempre, acompanhando as negociações, monitorando a adesão, registrando os transtornos ao resto da população e tentando esclarecer as dúvidas práticas decorrentes da paralisação.

De um aspecto, porém, não se fala, nem nos jornais, nem nas rodinhas de conversa: em larga medida, a greve, para essas duas categorias em particular, é um tiro no pé.

Além do governo e do patronato, carteiros e bancários enfrentam um inimigo cruel, conhecido vulgarmente como alternativa. E talvez não exista melhor exemplo, por unir as duas frentes, que o boleto bancário. Comumente recebido pelo correio, pode, em muitos casos, ser impresso nos sites das empresas e bancos. Um dia figura popular nas filas das agências bancárias, tornou-se, aos poucos, mais afeito à praticidade das caixas eletrônicas e do internet banking.

A greve, nesse contexto, só incentiva os resistentes ao meio eletrônico a abandonar de vez os caminhos tradicionais. E, quanto mais gente migrar para a internet e o autoatendimento, menos força terão as categorias profissionais e mais absurdas serão reivindicações como a contratação de mais empregados.

Talvez seja uma realidade cruel. Mas não menos real por isso.

Nesta terça-feira, ao que parece, a situação se repetirá.

A realidade das duas categorias melhorou de lá para cá?

Depois de piscar várias vezes no show do NX Zero (para ver quando acabava) e de ver Dinho Ouro Preto tocar Que país é esse no Rock in Rio, só me restava rever o Acústico Nirvana, na MTV. É concorrência desleal, eu sei. Mas a culpa é do rock brasileiro, incapaz de produzir uma música de protesto decente desde os anos 80.

Sim, para falar mal dos políticos – do Sarney em especial – Dinho  precisou desencavar o velho hit da Legião Urbana.

Não fizeram nada de bom depois disso?

No show do Nirvana, pelo menos, podia ouvir o Man who sold the world, do David Bowie – que funciona bem para protestar nos EUA.

Mas vamos fazer um retrospecto: nos anos 70 os compositores se arriscavam a ir em cana, mas não deixavam de protestar. Falavam em flores, gritavam pega ladrão (não fica um) e eventualmente arriscavam um “chame ladrão”, para falar mal do governo.

E hoje? Bom, depois de Que país é esse, a última tentativa bem sucedida de protesto foi do Paralamas, com os 300 picaretas do Luis Inácio. Mas faz tempo – e o sentido da musica foi distorcido pelo seu personagem. O tal Luis Inácio era da oposição e nem sonhava com o dia em que diria que “político tem que ter casco duro” que não pode ter medo de denúncias. “Desse jeito, não fica um”, completaria Bezerra da Silva.

Podiam tentar convencer o Chico Buarque a produzir alguma coisa de protesto. Mas ele faz campanha para o governo, é irmão de ministra…. Bom, deixa para lá.

O curioso é que faria sucesso. A multidão cantando Que país é esse mostra que há vontade de gritar, só não há música. A do Legião é quase balzaquiana. É como com a oposição na política: há eleitores de oposição, mas é difícil encontrar um político realmente de oposição. O Aécio quase pede desculpas para falar mal do governo, o Serra diz que faria igual ao governo, diz que baixaria os juros na marra.

Há ouvintes, só não há compositores. Vai que depois um deles precisa de financiamento via Lei Rouanet…

Em tempos de liberou geral na política, os músicos deixam passar a chance de compor alguma coisa histórica  - e nos deixam ao som de… NX Zero.

Por que não fazem mais coisas desse tipo?

Meritocracia

setembro 17, 2011

O Brasil precisa de um Estado meritocrático e profissional.

A frase, dita pela presidente Dilma Rousseff na instalação da Câmara de Políticas de Gestão, Desempenho e Competitividade, em 11 de maio, paira no ar sempre que se nomeia um novo ministro.

O discurso para justificar a contradição e defender escolhas no mínimo curiosas é de fazer inveja a vitrola quebrada: é preciso conciliar interesses, é preciso garantir a pluralidade, é preciso buscar um nome com habilidade política, é preciso enxergar além…

De fato, é preciso enxergar muito além para compreender como, num total de 39 ministérios, não exista um funcionário de carreira capaz de atender essas necessidades prementes e ocupar o posto mais alto da pasta. Ou para acreditar que dos 973 Especialistas em Políticas Públicas e Gestão Governamental em atividade no serviço público federal nem unzinho tenha “mérito” ou “profissionalismo” para chefiar um ministério.

Dilma deve ter aprendido com um incrível fenômeno que ocorre de tempos em tempos do outro lado da rua.

A Câmara se prepara para escolher um novo ministro do Tribunal de Contas da União (TCU). Os deputados poderiam indicar qualquer brasileiro com mais de 35 e menos de 65 anos; idoneidade moral e reputação ilibada; notórios conhecimentos jurídicos, contábeis, econômicos e financeiros ou de administração pública; e mais de dez anos de exercício de função ou de efetiva atividade profissional que exija esse conhecimentos. Mas por que romper com a tradição? Assim, lançaram 13 colegas para disputar a vaga contra um solitário candidato azarão, Rosendo Severo, um mero… auditor de carreira do TCU.

Quem vai ganhar, ninguém sabe. Agora, quem vai perder…

Brasília não foi feita em um dia. As negociações, trocas de ministro e compras superfaturadas têm história: são resultado de séculos de experiência e conhecimento acumulado.

Qualquer técnica que torne um processo mais eficiente se encaixa na definição de progresso tecnológico. Não são só iPads e celulares. Se alguns países se especializaram em produzir relógios e desenvolveram – por séculos – as técnicas para fazer isso, aqui nossa tradição é outra.

Desde que Tomé de Souza fez a primeira licitação superfaturada (e a obra foi entregue com atraso), brigamos para ser inovadores e estar na ponta na arte de desviar dinheiro público.

É fácil comprovar. Hoje, desviadores, aloprados e afins contam com assessoria jurídica, departamento de marketing, bons assessores de imprensa e até acadêmicos (que justificam o uso estranho de verba federal com teorias neo-hiper-keynesianas muito curiosas).

Toda essa sofisticação não começou ontem – e não vai acabar amanhã.

De qualquer jeito, assusta ver coisas como o aumento do IPI sobre carros com componentes importados. O desvio não tem nada de novo: político favorece empresas que financiam político. O que é novo é o tom de decreto – que dispensa respaldo jurídico. O governo  saiu atropelando legislação, normas internacionais e até acordos tácitos sobre como reagir à crise econômica internacional.

O imposto sobre importação de automóveis já tinha a alíquota máxima (35%). Por isso aumentaram o IPI e não o imposto de importação. E fizeram isso de um dia para o outro – deixando para lá os prazos legais.

Que os carros vendidos aqui são mais caros que no resto do mundo, eu já sabia. Mas não sabia que somando frete da China e 35% de imposto de importação ainda faltavam 30% extras de IPI para o preço deles ficar próximo do preço local.

Não, isso não é um atestado de incompetência das multinacionais que produzem aqui. É uma prova de como dominam a tecnologia de extrair monopólios do governo, de como sabem ganhar dinheiro intimidando a concorrência com normas que mudam de repente – para punir quem se atreve a entrar no “seu mercado”.

Alguém devia tentar proteger os consumidores…

Tecnologia à parte, o lado macroeconômico da história também assusta. Fechar mercados para a concorrência estrangeira não é exatamente uma inovação. Fizeram isso nos anos 30. O resultado foi uma piora significativa da Grande Depressão.

Fechar mercados em época de crise internacional é uma das decisões mais temerárias que um governo pode tomar.

Como a Organização Mundial de Comércio (OMC) não é exatamente uma instituição ágil,  a coisa pode degenerar em represálias informais. E aí, salve-se quem puder.

A desculpa de proteger empresas locais é cascata de acadêmico super-heterodoxo-à-venda. Não existem montadoras locais no Brasil: são todas multinacionais. E suas vendas cresceram esse ano (apesar dos preços fora do padrão mundial). Se estão começando a acumular estoque é porque estão produzindo mais (e não querem baixar o preço para vender).

Depois da queda dos juros, essa é mais uma decisão inflacionária – e difícil de justificar com argumentos econômicos.

Mantega: reinventando a teoria econômica.

Não foi isso o que aconteceu. O Banco Central é independente e toma suas decisões sem consultar o ministro da Fazenda ou a presidente da República. Mas, lendo o noticiário econômico dos últimos dias, dá muita vontade de juntar as pontas e explicar – em uma pequena teoria conspiratória – a queda dos juros, a alta futura da inflação, a alta do dólar e as pressões políticas da indústria paulista sobre o governo.

A história começa com o representante de uma associação de industriais ligando para o ministro da Fazenda e dizendo:

- Eu falei para você que com o dólar baixo assim não ia dar. Nós nos reunimos ontem e decidimos cortar seu financiamento e apoiar o Serra nas eleições.

- Mas o Serra nem vai ser candidato…

- Agora vai.

- Olha, eu já inventei imposto sobre compra no exterior, já aumentei o IOF sobre câmbio futuro, já comprei centenas de bilhões de dólares para segurar a cotação. Não tem mais o que fazer.

- Dá seu jeito. A gente não quer concorrer com empresa estrangeira. Sem dólar caro, não tem financiamento de campanha.

O ministro, que já perdia o sono com o câmbio, ligou então para a presidente:

- Presidente, os caras ligaram e disseram que se a gente não desvalorizar o real eles cortam o financiamento de campanha.

- Mas não dá. A gente já criou imposto sobre compra no exterior, já aumentou IOF…

- Eu sei, eu sei. Mas tem um jeito: se todo mundo acreditar que a economia do Brasil vai pro fundo do poço, que o caos inflacionário vai voltar – com tudo dando errado como nos anos 80 – as pessoas vão começar a comprar dólar, vão começar a mandar dinheiro pra fora. Aí o dólar sobe e os industriais liberam o dinheiro para a campanha.

- Mas aí a gente acaba com a economia.

- Não precisa acabar completamente. A gente pode destruir só um pouquinho…

- Eu não sei…

- É fácil. A gente liga pro Tombini e diz para ele bolar uma desculpa qualquer e baixar os juros amanhã, de um jeito que ninguém previu. Isso vai acabar com a confiança no Banco Central,vai  fazer a expectativa de inflação subir. Só por conta disso, da expectativa de inflação alta, deixa de valer a pena comprar real e passa a valer a pena compra dólar.

- É… Mas, se os juros caírem e o dólar subir, a inflação vai ter dois bons motivos para subir (além do desemprego baixo, do gasto público alto, da renda do trabalho crescendo e do crédito fácil).

- É, mas fazer o quê? É isso ou não ter verba para a campanha ano que vem.

- Mas, se a inflação subir, a gente perde a eleição.

- É eleição para prefeito, o debate vai ser mais sobre rua esburacada e falta de médico em hospital…

- Tá bom, liga pro Tombini. Eu vou fazer um pronunciamento dizendo que já está na hora de baixar os juros. Isso vai acabar de vez com a credibilidade do BC e fazer a corrida para o dólar ser mais forte.  Você pode fazer um pronunciamento também, ou dar uma entrevista…

- Ok. Tá combinado então.

Alexandre Tombini, presidente do Banco Central do Brasil

Os europeus não são diferentes de nós. Em especial, os políticos europeus não são diferentes dos daqui. Se parecem cometer menos atentados ao dinheiro público, é só porque os mecanismos de controle de lá funcionam melhor que os daqui.

E esse é todo o problema: esses mecanismos funcionam para processar o prefeito de Paris se contratar empresas fantasma, mas não parecem ser suficientes para evitar que o presidente da França proteja os banqueiros de seu país dos efeitos das próprias decisões (ruins).

Muitos bancos da Europa estão mal. Estão cheios de títulos de dívida de países que vão dar calote – ou reestruturar suas dívidas com grandes descontos para os credores – o que é bem parecido.

França, Alemanha e outros deviriam então forçar os bancos a se capitalizarem, a se prepararem para o calote que vem aí. Mas em tempos de crise, a boa administração vira detalhe e o “meu pirão primeiro” vira a regra.  Gritar mais alto, ou mais perto do ouvido do governo, garante o melhor pedaço do bolo. Não há boas instituições para obrigar os governantes a fazer logo os ajustes em vez de empurrar com a barriga.

O governo alemão vai empurrar o quanto puder (até depois das próximas eleições) o ajuste grego. A Grécia faliu, vai dar calote, todo mundo sabe. Mas ficam todos fingindo que não, que está tudo sob controle…

Há alguns anos, um professor da Universidade de Havard propôs a tese de que o efeito das crises sobre diferentes países é inversamente proporcional à qualidade de suas instituições. Quer dizer, melhores instituições impedem que o governo seja tendencioso demais na hora de dividir a conta da crise. São as instituições que fazem o governo ser racional, não os políticos.

Bom, a Europa precisa de novas instituições – pode ser um Tesouro Europeu comum, um Parlamento Europeu com mais poderes ou um FMI mais incisivo na cobrança dos ajustes, não sei. Mas, deixadas na mão de presidentes e primeiros ministros preocupados só com o eleitorado da província (e só com o efeito da crise até a próxima eleição), as políticas contra a crise ficarão longe do ideal.

Gestão de pessoas

julho 26, 2011

Os pesquisadores do fenômeno da corrupção são quase unânimes em apontar uma correlação entre nível de remuneração e propensão ao desvio. Em bom português: segundo os estudos, quem ganha mais, rouba menos. A regra, obviamente, não é infalível. Tampouco se sugere, com isso, que os corruptos sejam pobres vítimas de salários baixos. Trata-se apenas de uma constatação. Correta ou não, é essa constatação que fundamenta, por exemplo, o posicionamento de auditores e fiscais no topo da folha salarial de qualquer esfera de governo.

Os recentes escândalos no Dnit e no Incra servem, assim, para revelar falhas um pouco mais sutis que as elencadas no Título XI do Código Penal. Um exame dos casos denunciados revelam uma atuação intensa das superintendências regionais dos órgãos, instâncias responsáveis por “botar a mão na massa”, ou seja, gerir obras milionárias e cuidar da regularização de terras cobiçadas. Com tantos interesses em jogo, seria de se supor que as autoridades máximas dessas unidades, os superintendentes regionais, estivessem em posição salarial privilegiada na folha do governo federal.

Não é o caso.

Os superintendentes regionais do Dnit e do Incra ocupam cargos comissionados do tipo DAS 101.4, de livre nomeação, o que corresponde a uma remuneração mensal de R$ 6.843,76 para não servidores e um adicional de R$ 4.106,25 para servidores na chamada “opção”. É o mesmo valor pago, por exemplo, a centenas de “assessores” de gabinetes de ministros e secretários-executivos e até aos famosos “assessores de ex-presidente da República”.

Repita-se quantas vezes forem necessárias: uma remuneração inadequada não explica, muito menos justifica, atos de corrupção e improbidade administrativa. Mas, a despeito disso, partir de uma estrutura salarial que faça um mínimo de sentido pode ser um bom passo para melhorar a gestão da coisa pública.

É por maldade?

julho 23, 2011

O trem bala é uma prioridade e não saiu da agenda do governo. A inflação será contida sem queda no crescimento econômico. E outra prioridade do governo é a política industrial.

Essa sequência assustadora de declarações foi feita ontem, pela presidente da República.

Não faltam artigos de jornal lembrando o que dá para fazer com os R$ 35 bilhões (ou R$ 50 bilhões segundo construturas) necessários para pôr o trem bala para andar. O número de beneficiários do trem – e o que eles economizariam em passagens da ponte aérea – está longe de justificar a obra. O benefício seria maior se gastassem em metrô, em contratação de médicos, em aporte para complementar o salário de professores públicos.

Mas tudo bem, o trem dificilmente vai sair do papel: ele é mais desejo – ou balão de ensaio – da presidente que projeto político de verdade. Até onde eu sei, ele ainda nem tem projeto executivo: não existe um projeto detalhado com a inclinação do terreno, a extensão das pontes ou o número (que dizer do valor) das áreas que teriam que ser desapropriadas.

É uma cascata.

Mas a política econômica tem sido como a presidente descreve. E, nesse caso, não parece ser por maldade, porque a bomba vai explodir no colo dela. A história de conter a inflação sem desacelerar o crescimento está mantendo a inflação alta por um período muito longo – e a perda de renda começa a ficar grande demais para quem vive de salário, para quem não pode aumentar o preço do que vende.

As greves já estão começando – e vão aumentar. Dilma, e seu ministro da Fiesp, adotaram uma política econômica pró-industria paulista. O ministro chegou ao ponto de dar declarações à imprensa dizendo que não perde o sono com a inflação mas que o câmbio baixo (que contém os aumentos de preço mas aumenta a concorrência com a indústria paulista), esse sim, o deixa noites em claro.

Estamos mal parados. A indústria (que gera menos de 30% do PIB) está ditando uma política de curto prazo que vai deixar os assalariados no osso. E a presidente a defende alegremente: fala até em novos projetos de política industrial. Em bom português isso quer dizer mais transferências diretas de dinheiro público para as indústrias amigas.

O que eu posso dizer? A inflação vai fechar este ano acima de 6%. Quer dizer: vão ser mais de 12% acumulados em dois anos. Se você não teve aumento, faça greve. A Fiesp faz coro contra o aumento de juros porque quer liberdade para aumentar preços  - quer ver a demanda crescer apesar do aumento de preços. E nossa presidente, pelo jeito, comprou a ideia.

Se move?

julho 17, 2011

Do capítulo “A sociedade”, de Os Bruzundangas, livro póstumo de Lima Barreto em que descreve a vida e os costumes desse país distante (mas curiosamente familiar), a Bruzundanga. O livro foi escrito na década de 10 do século passado:

“A política não é aí uma grande cogitação de guiar os nossos destinos; porém, uma vulgar especulação de cargos e propinas.”

“(…) Os pintores vivem à míngua e, se querem ganhar algum dinheiro, têm que se rojar aos pés dos poderosos para que estes lhes encomendem quadros, por conta do governo.

Porque eles não os compram com dinheiro seu (…). É outro feitio da gente imperante da Bruzundanga de só querer ser generosa com os dinheiros do Estado.”

“Há lá salões literários e artísticos, mas de nenhum deles surgiu um Montesquieu com o Espírito das Leis (…). A gente da Bruzundanga gosta de raciocinar por aforismos. Sobre todas as coisas, eles têm etiquetadas uma coleção deles.”

Cenas de um país fictício.

Inflexão

julho 10, 2011

Quem faz previsões erra – e sabe que erra. O cuidado é para não errar por muito. E o que analistas e futurólogos mais erram são os pontos de inflexão, os momentos em que uma tendência muda. São os estouros de bolha, as mudanças de imagem, as horas em que o público – finalmente – perde a paciência.

Essas inflexões (em muitos casos) são previsíveis. Mas, se dá para ter ideia do que vai acontecer, saber quando é bem mais difícil. Às vezes é difícil perceber até depois da virada. A bolha imobiliária brasileira, por exemplo, dá sinais de já ter estourado. Mas são sinais discretos – e há quem se recuse a vê-los.

Afinal, os compradores já começaram a adiar compras? Os preços anunciados estão deixando mais imóveis encalhados? Índices como o do Zap Imóveis são apenas para os preços dos anúncios, não para os negócios fechados (e muito menos para os que deixaram de ser fechados porque o preço pareceu irrealista).

O número de imóveis vendidos, segundo discretas notinhas de jornal, caiu. Como as construtoras estão produzindo em ritmo acelerado, parece que a demanda resolveu dar um tempo. Sim, é o estouro da bolha. Antes tarde do que nunca. Mas até os preços caírem de verdade anda demora. Quanto tempo? Difícil prever.

PS. Comecei a ler um conto (“Bruzundangas”) do Lima Barreto. Uma das coisas mais estranhas em ler Lima Barreto é a atualidade – não só do texto, mas da descrição do país. Os problemas parecem não ter mudado muito no último século. Achar inflexões em séries longas devia ser mais fácil que em séries curtas. Mas é difícil achar inflexões onde elas quase não existem…

Nova rainha

junho 14, 2011

Se é verdade que cada país tem os monarcas que merece, vale a pena perguntar: o que nós fizemos para merecer isso?

Ontem, enquanto visitava uma fábrica em São José dos Campos, o ministro da Ciência e tecnologia, Aloísio Mercadante, declarou que quer receber – de um antecessor no cargo – o valoroso título de Rainha da sucata:

“O governo Dilma vai aumentar a exigência de conteúdo local”, declarou o ministro. A frase quer dizer que, assim como o antigo ocupante do cargo – e antiga Rainha da lata -, Mercadante não acredita em especialização, vantagens comparativas ou no resto da teoria econômica. Para ele, importar é ruim: o Brasil tem que produzir seus computadores, celulares e tudo mais aqui – e com peças nacionais.

Já vimos o filme. Sabemos que o resultado é preço mais alto e qualidade mais baixa para o consumidor, são produtores com monopólios garantidos pelo governo e empresários muito agradecidos (e dispostos a financiar a campanha de quem os tratou tão bem, com incentivos tão fortes para produzir sua sucata).

Segundo matéria do Estadão de hoje, Mercadante usou o argumento clássico dos lobistas: ele quer “reduzir o déficit na balança do setor de eletrônicos”. O velho David Ricardo dá voltas no túmulo sempre que alguém diz isso. É como a Noruega investir mais em plantações de laranja para reduzir o déficit na balança de frutas tropicais. É melhor para eles produzir bacalhau, exportar e, com o dinheiro, comprar laranjas brasileiras.

Nenhum país tem vantagem em produzir tudo. Os economistas sabem disso há uns 200 anos, desde que David Ricardo provou a tese. Quando estimula a produção de coisas que são feitas a custo menor em outros países, além de nos fazer pagar mais, o governo diminui nossas importações. Isso valoriza o real (o que diminui nossas exportações). É política ruim, qualquer aluno do primeiro período de economia sabe disso. Aliás, esse Mercadante devia estudar um pouco de economia, só o básico, para não falar besteiras desse tipo.

"Vantagens comparativas? Não, nunca. Devo ter faltado essa aula."

O Facebook planeja fazer uma oferta pública de ações (IPO) no próximo ano. Segundo o globo.com, o preço das ações oferecidas pela empresa suporá um valor de cerca de US$ 100 bilhões para o site de relacionamentos.

Só para dar uma idéia: US$ 100 bi são, hoje, R$ 160 bi, o que é igual a 4,4% do PIB do Brasil em 2010.

Isso é muito mais do que o governo daqui gasta em saúde anualmente (3,5% do PIB). Quer dizer, é mais do que ganham em um ano todos os médicos, enfermeiros, recepcionistas e afins de postos de saúde, clínicas e hospitais de todas as prefeituras, governos estaduais e do governo federal. É mais do que toda a verba para manter a burocracia do Ministério da Saúde, a agência de vigilância sanitária, os postos de vacinação, os tratamentos em hospitais privados conveniados ao SUS e os programas de distribuição de remédios.

Sei lá porque, parece um pouco desproporcional.

Meu palpite é que a desproporção está na maneira como a Goldman Sachs – provável responsável pelo lançamento das ações – avalia o Facebook.

Sim, isso é um sinal de bolha no mercado de ações de alta tecnologia (lembra muito a que que estourou em 2000, também nos Estados Unidos).

Bolha pontocom - gráfico do índice Nasdaq.


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